O modo como deveria ser exercida a supervisão pedagógica na Avaliação do Desempenho Docente, através do avaliador externo, nem sempre respeitou os procedimentos mais adequados para criar um bom ambiente de trabalho, nomeadamente a marcação de um encontro de pré-observação, para estabelecer um clima de proximidade apostando na atitude colaborativa, informando sobre as técnicas de observação a serem utilizadas e adotando princípios de ética avaliativa comum.

Deveria ser ainda feita uma análise sobre a avaliação dos alunos e os respetivos desempenhos face aos objetivos traçados para a aula, detetando de forma construtiva o erro ou a falta, reconhecendo e valorizando polos de qualidade e excelência. Por fim, deveria ser feita uma avaliação sobre a dimensão científica e pedagógica do docente observado, seguido de um encontro de pós-observação. Este seria o procedimento de supervisão pedagógica de que se revestiria a avaliação externa. Mas a verdade é que os professores não estavam preparados para isso a vários níveis, o que causou mal-estar na classe quer por quem tinha de exercer essa função ingrata de avaliar um colega, quer por quem era avaliado.

Foi grande a dificuldade sentida pelos avaliadores externos em exercer o seu papel para além dos interesses e motivações individuais, em atender às singularidades humanas, respeitando a liberdade profissional e traduzindo o desempenho em perfis numéricos, já tão difícil de fazer em relação aos alunos, quanto mais em relação aos seus pares. Foi grande a dificuldade em reconhecer os polos de excelência mas também em agir como “amigo crítico”, em avaliar um colega com quem tinham uma relação de conflito, em avaliar um colega com quem tinham uma relação de amizade.

Os professores avaliados, por seu lado, sentiram dificuldades em cumprir com a pluralidade de exigências relativas a um sistema educativo específico e delicado. Muitas vezes não confiaram ou reconheceram de autoridade profissional do avaliador externo e receavam o efeito indireto deste tipo de avaliação na comunidade educativa. Sentiram-se constrangidos em aceitar o poder decisório do avaliador e em realizar a autoavaliação.

Como se constata, esteve longe de ser pacífica a relação entre os diversos intervenientes neste processo avaliativo. Esperamos que o novo modelo de avaliação do desempenho docente que o governo se propõe apresentar, sem avaliação externa, tenha efeitos a curto prazo para que dessa avaliação se proceda ao próximo passo, nomeadamente o reposicionamento dos docentes nos respetivos escalões da sua carreira, fazendo justiça a estes profissionais através de uma remuneração justa e direitos acautelados. Porém, é inaceitável o sistema de quotas que não premeia o mérito mas cria apenas mecanismos de poupança financeira para a tutela.

*Artigo de opinião publicado no Tribuna da Madeira / 05-03-2018

Patrícia Spínola

Patrícia Spínola

Deputada Parlamentar em Juntos pelo Povo
Professora licenciada em Ciências da Educação – 1º Ciclo do Ensino Básico pela Universidade da Madeira; Pós-Graduada em Habilidades Sociais e Competências Profissionais para a Gestão em Organizações Públicas e Privadas pela Universidade de Cádiz; Mestranda em Ciências de Educação – Supervisão Pedagógica, na Universidade da Madeira; Deputada Municipal no concelho de Santa Cruz; Membro da Comissão Alargada da CPCJ-Santa Cruz.
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