Numa democracia plena, todos têm um papel a desempenhar e todos podem contribuir, na sua área de intervenção, para ajudar, fortalecer e inspirar uma comunidade. O único problema está na circunstância de muitas vezes se ultrapassar competências e, mais grave do que isso, se usurpar legitimidades que não passaram pelo crivo de uma verdadeira legitimação democrática.

A Madeira, infelizmente, tem um longo historial de ingerências, de teias, de tentáculos, de criação de estruturas que são verdadeiros mecanismos de dependência e ingerência, que não raras vezes serviram para sustentar interesses, manter regimes, ou seja para criar um sistema fechado e impermeável, até mesmo ao livre desempenho de uma democracia digna desse nome.

Em paralelo com eleições livres, mantinha-se um sistema subterrâneo e eficaz de condicionar ou pelo menos orientar opções, decisões e até mesmo votos. À superfície a democracia seguia os seus trâmites, mas debaixo desta epiderme democrática, um outro sistema paralelo garantia que tudo corria bem para o lado dos que se sentavam democraticamente nos lugares de poder, mas que lá se mantinham por métodos e truques que escapavam à lógica democrática.

O povo ia votar, mas levava agarrado ao fato e à alma o emprego público, o trabalhinho para o familiar, o subsídio para a empresa ou associação, a obra ganha, o concurso feito à medida, o “ajudei, ajudem-me” tantas vezes apregoado, e descaradamente pedido. Como se a democracia não fosse escolha, mas sim sistema de troca, pagamento, espírito devedor e mão estendida ao pai que castiga ou premeia.

Vivendo debaixo de um único espectro político há mais de trinta anos, o poder infiltrou-se, não só onde democraticamente o levou o voto, mas também onde se conseguiu meter: desde o clube à associação, desde o coro à casa do povo, desde o grupo à banda. Tudo foi contaminado, agarrado, minorizado, sustentado, até só restar um caminho. E tudo feito sob o manto de uma suposta democracia e liberdade. Mas as amarras estavam lá.

Pensava, no entanto, que com uma nova geração de políticos, estas práticas antigas tinham caído em desuso. Que a maioridade democrática tarda mas chega. E de alguma forma ela chegou, mas há muita gente com saudades do passado, e que chama por ele, e que ainda julga que pode, e que ainda julga que é possível.

É só estar atento aos discursos, às auto-proclamadas legitimidades democráticas, às auto-reclamadas representações do povo.

Em democracia ninguém deve tirar o valor a ninguém, mas em democracia também não se deve usurpar legitimidades democráticas e representativas. Quem representa o povo são apenas aqueles que o povo elege. Quem representa o povo não são braços-armados encapotados de associações, casas do povo, ou grupos disto e daquilo. Quem representa o povo não são nomeados que se julgam investidos de um poder que não têm.

Os representantes do povo são escolhidos pelo povo e não impostos de fora, nem mesmo à força de manter dependências, subsídios, favorzinhos e outros truques.

A Democracia não é transacionável, a liberdade não se vende, o povo não se compra.

*Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias / 28-02-2019

Filipe Sousa
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