Foi com esta manchete no JM do passado dia 21 de fevereiro, que foram entusiasticamente anunciados os investimentos do Governo Regional para as florestas durante estes quatro anos de aparente “renovação”.

Não posso deixar de ressalvar a ironia da foto exposta na reportagem que ilustra, efetivamente e de uma forma isenta, o que foram os resultados destes 30 milhões. Uma foto onde figuram quatro plantas abandonadas à sua sorte, acompanhada de uma imensa extensão de infestantes que continuam viçosamente a ocupar as nossas serras.

Coloca-se a forçosa questão: De que forma foram utilizados estes 30 milhões?

A verdade é que, em fim de mandato e após quatro anos de “gestão florestal”, podemos afirmar sem rodeios de que muito pouco tem sido feito em benefício da conservação do nosso património natural.

Este desinteresse governativo talvez seja explicado pelo facto de a Floresta não ser um “tema fraturante” e de não render muitos votos.

Mas esperava-se outra postura por parte do executivo regional, após as situações de calamidade pública vividas na Região durante os últimos anos, com incêndios devastadores que consumiram extensões de área florestal de cerca de 22 mil hectares. Só nos últimos dois anos foi consumida uma área equivalente a cerca de 10% da extensão da ilha da Madeira.

Tão grave como este “desinteresse” é o facto de continuarmos a assistir a completos absurdos ao nível da conservação e da manutenção dos habitats, onde, em vez de se investir de uma forma ponderada e devidamente informada, faz-se exatamente o inverso. Optou-se pelo investimento de dinheiros públicos na libertação e disseminação de espécies que, comprovadamente, vêm prejudicar o nosso ecossistema insular (já de si fragilizado), num completo desrespeito não só pelo património natural, mas também em completo contrassenso com a atual legislação, numa prática incompatível com os objetivos regionais, nacionais e comunitários em matéria de desempenho ambiental.

Não podemos aceitar que se continuem a gastar milhões e milhões de euros de dinheiros públicos, numa gestão florestal completamente absurda, onde se erradicam plantas invasoras pouco adequadas e altamente inflamáveis, para posteriormente voltar a plantá-las em áreas de risco de incêndio elevado, num contínuo ciclo de plantação de exóticas e posterior erradicação. Tudo isto à custa e à vista do contribuinte.

Permitam-me que, a título de exemplo, ilustre este artigo de opinião com uma foto recente de uma florescente reflorestação nas serras da Madeira. Tudo estaria bem, caso a espécie vigorosa que agora floresce não se tratasse de exemplares de carqueja, uma espécie vegetal invasora com elevado poder de proliferação, altamente inflamável, e uma das principais espécies que, ao longo dos anos, tem vindo a arruinar o nosso coberto vegetal nativo. Situações destas só poderão indiciar dois cenários que confluem na mesma conclusão: uma completa negligência e abandono das áreas reflorestadas ou uma absurda irresponsabilidade de quem gasta milhões e milhões de euros para plantar… plantas invasoras. Deixarei a conclusão à consideração do leitor.

Há opções e uma consequente leitura política, naturalmente. Mas acima de tudo são reformas políticas incoerentes e desajustadas, que têm usado a nossa floresta, a nossa água, o nosso solo e a biodiversidade como peças e peões num mero tabuleiro eleitoral.

*Artigo de opinião publicado no JM / 25-02-2019

Rafael Nunes

Rafael Nunes

Deputado Parlamentar em Juntos pelo Povo
Formado em Ciências Biológicas e da Saúde pela Universidade dos Açores e investigador no CHAM – Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores; Especialista em áreas de Antropologia, Ecologia, Conservação e Gestão do Ambiente, Biologia, Sustentabilidade e Desenvolvimento Rural.
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