Deparo-me diariamente com SOLIDÃO, sentimento de vazio, levando-me a pensar o porquê de chegarmos à velhice.

A infância ainda que alegre, foi agreste para quem nasceu numa década em que o trigo e o milho faziam uma mesa farta.

Os sinais do tempo e as vivências salientam as expressões e as rugas de quem um dia pensou gozar uma velhice tranquila.

Estão sós… os cônjuges partiram, os filhos emigraram, os netos nasceram em países distantes e por lá ficaram, isto porque o tal “cantinho do céu” não lhes garante futuro. Resta apenas as saudades e a antevisão de verem as famílias entrar à porta para dentro no próximo verão ou no próximo natal e lhes garantir um pouco de conforto na alma.

Restam as paredes bolorentas, pois as janelas mal se abrem e avistam-se canteiros embravecidos pelas giestas que não param de crescer.

Ensejam alguém que lhes dê meia dúzia de prosa, que lhes pergunte como estão, como têm passado para se poderem sentir lembrados.

Quis o destino que alguns não tivessem filhos e nestes casos são os sobrinhos que os auxiliam e que os amparam, isto, quando lhes sobra tempo no atribulado quotidiano entre filhos e escola, entre casa e trabalho.

A pandemia ainda tornou esta melancolia mais atroz, muitos frequentavam os centros de dia, mas o confinamento delimitou-os às tristes paredes bolorentas. São muitos aqueles que dependiam desta confraternização para falar, para sorrir e até mesmo para lamuriar. Como diriam eles “maldito vírus, será que isto não irá acabar”.

E o tempo passa e as rugas se acentuam e a lembrança se esquiva. São réstias de força e de alegria que sobram naqueles corpos. São “gente” que trabalhou arduamente e que ansiava por uma reforma. A reforma chegou, mas a saúde faltou e a solidão escureceu os rostos que um dia sorriram e vislumbraram um futuro promitente onde as casas vazias não se adivinhavam, nem se desejavam.

É esta a realidade com que me deparo no dia-a-dia…

LILIANA VALENTE

Assistente Técnica

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