Não há nada que mais desgaste do que estar a trabalhar e ver gente que se encosta à parede para dar opinião e criticar, género treinadores de bancada no campeonato de futebol.

E isto nada tem que ver com o aceitar a crítica, que é sempre bem vinda e normalmente ajuda a corrigir o rumo e aguça a vontade de fazer melhor. Mas é claro que isto só acontece quando a crítica é verdadeira, sustentada e construtiva. Ora, estas três valências que validam uma crítica não entram no jogo político, que é mais fogo de vista, e interesses inconfessados e disfarçados de súbito interesse.

Podia falar das muitas áreas que têm estado sob a mira do exercício político do momento, movido pelo vento das próximas eleições regionais. Uma espécie de navegação à vista, com interesses mais ou menos claros e outros nem tanto.

Mas, basicamente, critica-se o que agora se faz e o que nunca se fez, como se o mundo não tivesse história.

Porque a área da cultura está sob a minha tutela, confesso que não consigo ficar calada perante dois recentes episódios que tiveram como alvo a Casa da Cultura e o Património.

Por acaso, as duas críticas vieram de um mesmo partido, que agora está muito concentrado em Santa Cruz, o CDS. Um dos casos é mesmo paradigmático da forma como se exerce a política ou a sua face mais vergonhosa, que é a demagogia gratuita. Estando o referido partido representado na nossa Assembleia Municipal, teve a oportunidade de votar um empréstimo que visa o investimento em áreas tão cruciais como as águas e saneamento e também numa área que nos tem merecido toda a atenção que é a área cultural. Nesta última, incluiu-se, e isso foi dito em Assembleia Municipal, a recuperação da Casa da Cultura de Santa Cruz, que esteve anos e anos votada ao abandono, quer em termos de programa cultural, quer em termos infraestruturais. Ora, votado o empréstimo que vai permitir a recuperação do edifício que assim vai finalmente acompanhar a dinâmica em termos de agenda cultural, o CDS veio a público reivindicar aquilo que sabia estar nos planos concretos da autarquia. Isto tem um nome, mas eu não vou dizer qual é. Há que manter um certo nível no panorama de aproveitamento descarado e de sem vergonha desmedida.

O outro caso, com os mesmos protagonistas, já me parece um caso de ignorância. Ao proporem um plano de ação de recuperação e divulgação do património de Santa Cruz, ignoram, ou por má fé ou por interesse, sendo os dois igualmente lamentáveis, o trabalho que se tem feito neste domínio, quer pela câmara, quer pelas juntas, alinhado com a atenção que temos dado ao Dia Internacional dos

Monumentos e Sítios, que tem servido como reflexão e como ponto de partida de uma agenda sustentada para a nossa intervenção.

A título de exemplo, refiro a recuperação e limpeza do Cruzeiro em frente aos Paços do Concelho, e a recuperação da Fonte dos Ingleses, num trabalho meritório da Junta de Freguesia do Santo da Serra.

Isto para já não falar que foi com a gestão do JPP que se tem feito uma verdadeira divulgação do nosso património cultural físico e histórico. Para que não se fique apenas pelas palavras, lembro a realização dos roteiros do património de todas as freguesias do concelho, em várias línguas, e a publicação dos Anais de Santa Cruz e das Atas do Congresso dos 500 anos, que teve um grande pendor cultural.

Ou seja, o património e a cultura no seu sentido mais lato tem sido um dos nossos eixos de ação, mesmo quando ainda tentávamos arrumar a casa em termos financeiros. Isto porque acreditamos que um povo sem cultura e sem memória perde a sua identidade, e que um programa de desenvolvimento sem cultura e sem memória perde a sua eficácia.

Aos treinadores de bancada exige-se, por isso, um comportamento com mais memória, maior rigor e, sobretudo, com responsabilidade.

ÉLIA ASCENSÃO
Vereadora da Câmara Municipal de Santa Cruz

*Artigo de opinião publicado no JM / 26-09-2018

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