De braços no ar e em alta voz, ele gritava furioso: «Tu estás morto, e bem morto, e ainda não sabes!». Quem por ali passava e não podia deixar de ouvir, ficou sem saber o contexto irado em que se gerou o insulto.

Mas trata-se, sem dúvida, de ofensa grave. Caminha alguém pela cidade, aparentando boa saúde e, por motivo que se ignora, cai-lhe em cima aquela pesada afronta.

Como, por prudência, vergonha, medo ou elevação moral, o cidadão enxovalhado não reagiu, o que poderia originar briga séria reduziu-se a exaltação momentânea, manifestada através de uns berros na via pública.

Há frases, involuntariamente registadas no quotidiano, que, no nosso íntimo, se juntam a outras vozes, em diálogos estranhos e irregulares, crescendo em espiral até se derramarem num escrito formalmente aceite e desejado.

E, nesse emaranhado de ruídos, o impropério assume a racionalidade de se aplicar a alguém, que não consegue acompanhar o tempo, falando e escrevendo com a linguagem de outrora, quando espalhava ódios, ameaças e armadilhas para levantar ondas de medos entorpecentes.

Tantos anos se passaram, e o veneno não lhe sai da boca, agora ressequida e trémula, denegrindo velhos amigos e pretensos inimigos, a uns ofendendo, a outros aplicando, com experiência de mestre, rótulos falsos e ridículos, que a sua mente perversa sonha para disseminar pela manhã ou pela calada da noite, criando fantasmas e papões, atingindo tudo o que se lhe opõe, com mal contido receio da História não lhe vir a reservar a cadeira, para a qual andou sempre encomendando boa madeira e forte grude.

O veneno não surpreende. Foi sempre assim. O mesmo de anos, apesar de agora proceder de laboratório anacrónico, com prazo há muito expirado.

Já os leitos, que acolhem o veneno, dão que pensar. São do género “quanto mais me bates, mais gosto de ti”, de triste reputação. Porta aberta que, sem pudor ou memória, dá guarida a arengadas bafientas.

É tempo de espantar a tralha e arrumar a casa sem a mobília do “defunto”, que se entretém a despejar peçonha, a repetir velhas e gastas tácticas e a distribuir papéis aos peões, para se vangloriar que continua a andar por aí.

NELSON VERÍSSIMO
Professor – Universidade da Madeira

*Artigo de opinião publicado no Funchal Notícias – Madeira / 31-01-2018

 

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