O des(A)gosto do nosso descontentamento

O mês de agosto, para a classe docente, surge todos os anos como um cardápio de iguarias agridoces cujo sabor perpetua no paladar educativo. Se, por um lado, agosto significa férias e o merecido descanso após um desgastante ano letivo, por outro lado significa igualmente ansiedade num futuro que continua incerto para desespero de muitos professores e educadores.

            Segundo dados apurados pelo Sindicato de Professores da Madeira, o sistema educativo regional irá perder aproximadamente 100 docentes da esfera pública. Atendendo a que, no ano letivo transato, já houve constrangimentos com a falta de recursos humanos, prevê-se que o cenário se agravará a partir de setembro. E o mais preocupante, a meu ver, está na Educação Especial. Com a proposta de alteração ao que está em vigor na discussão pública, esgrimem-se argumentos pró e contra as pretensas alterações. Não vou entrar na discussão porque existem meios próprios para o fazer. Apenas pontuo a minha preocupação aquando da operacionalização. Tal como, na atualidade, não devemos olhar para a Educação Inclusiva como um mero enfeite do embrulho educacional, também as previsíveis alterações equacionadas deverão ser alvo de uma reflexão profunda, na medida em que há um denominador comum: recursos humanos.

            A sabedoria popular costuma apoiar-se no provérbio “sem ovos não se fazem omeletes” e aplica-se no panorama educativo nacional. A crescente desvalorização profissional dos professores, acentuada com a constante pressão a que estão sujeitos por parte das tutelas faz com que a tal almejada renovação docente não se efetive. Os jovens mostram desinteresse pela profissão e as Universidades não conseguem preencher as vagas reservadas para os cursos que permitam a docência. E a questão surge invariavelmente: Quem segura a Educação em Portugal? De um modo linear, o trabalho recai nos professores que estão no ativo que se desdobram em horas e mais horas, muitas delas em horário não letivo para compensar a falta de profissionais. 

            A realidade na Madeira não é muito diferente daquela que assistimos no continente. As escolas desesperam por docentes e não docentes. Os professores e educadores sobrecarregados com tarefas burocráticas que penalizam a falta de tempo para elaborar planificações curriculares ajustadas às suas turmas; As Técnicas de Apoio à Infância sobrecarregadas de tarefas e mais tarefas que deveriam ser repartidas e são, cumulativas, no dia a dia nos Infantários e Prés; Assistentes Operacionais sobrecarregadas de tantas solicitações de limpeza. Prometem-se, no final de cada ano letivo, recursos. E depois, na realidade, eles não aparecem e o ciclo repete-se…

            A última novela à volta da educação prende-se com os exames nacionais e consequentes avaliações/classificações. Apelidam Portugal como o “país do improviso” e não podia ter melhor alcunha. Os decisores políticos desdobram-se em experiências e mais experiências, esquecendo-se que a educação não vive de “suposições”. A Educação alimenta-se de ações concretas, testadas com tempo e com um grau de exequibilidade passível de não pôr em causa o futuro dos professores, alunos famílias. 

            E é com des(a)gosto que entramos em agosto. Professores cansados, alunos angustiados, pais desesperados. Porque toda esta tramóia não são erros de circunstância. São erros de quem não soube fazer corretamente o seu trabalho de casa. São erros de quem, desesperadamente, tentou inovar e acabou por tropeçar nos seus próprios pés. São erros que penalizam os mais fracos (alunos) que dedicaram parte do seu tempo focados nestes exames que decidem o seu futuro.

            E é com des(a)gosto que entramos em agosto. O mês que deveria ser de descanso, das caminhadas na serra, dos convívios à beira-mar, dos reencontros familiares… o mês da reflexão, da autoavaliação, da pesquisa de novas estratégias para um novo ano que se aproxima! Porque ser Professor não é vestir um qualquer fato de cerimónia. Ser Professor é impregnar na pele uma vocação, uma missão… que não se despe em agosto!


José Carlos Mota

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