Uma semana após o duplo sismo que assolou a Venezuela, os trabalhos de resgate continuam. Mantêm-se as buscas, a esperança de encontrar sobreviventes e a angústia de muitas famílias que ainda aguardam notícias. Desde o primeiro momento acompanhei esta tragédia, tal como o fizeram tantos madeiren-ses. Antes sequer de compreender a dimensão da des-truição, peguei no telemóvel para saber se os meus familiares estavam bem. Felizmente estavam, mas nem todas as famílias puderam receber essa resposta.
A Venezuela ocupa um lugar muito particular na história da Madeira. Ao longo de décadas, milhares de madeirenses construíram ali as suas vidas, criaram famílias, abriram negócios e estabeleceram raízes. Para muitos de nós, Caracas ou La Guaira nunca foram somente nomes de cidades distantes, mas lugares onde vivem familiares, amigos ou antigos vizinhos. Não admira, por isso, que esta tragédia esteja a ser sentida entre nós de forma tão próxima.
Nestes dias assistimos também a uma mobilização impressionante de solidariedade. Equipas de resgate de vários países, profissionais de saúde, organizações humanitárias, associações da comunidade portuguesa e milhares de cidadãos procuraram responder à urgência do momento. Também na Madeira surgiram campanhas de recolha de bens essenciais, iniciativas de apoio e respostas institucionais dirigidas às populações afetadas.
Enquanto prosseguem os trabalhos de resgate, toda a atenção continua concentrada na procura de sobreviventes. Entretanto, para milhares de pessoas, a vida já começou a mudar de forma irreversível, e muitas delas enfrentam já uma realidade profundamente diferente daquela em que viviam até há poucos dias.
Para algumas, será necessário encontrar um novo lugar para viver; para outras, lidar com a perda de familiares, de ami-gos, do trabalho ou da comunidade onde construíram o seu quotidiano. Há crianças que crescerão sem um ou ambos os pais, pais que sobreviveram aos filhos, pessoas para quem a casa, a rua ou o bairro onde viveram deixarão de existir como os conheceram e famílias que terão de reaprender a viver depois de perdas que dificilmente se conseguem traduzir em palavras.
Nos próximos tempos, alguns portugueses e lusodescendentes poderão regressar a Portugal.
Entre eles haverá certamente madeirenses ou descendentes de madeirenses na esperança de encontrar na sua terra natal familiares, amigos e uma comunidade disponível para os acolher.
Chegarão, porém, trazendo consigo perdas cuja dimensão dificilmente conseguimos compreender. Trarão os poucos bens materiais que lhes restam e toda uma bagagem de memórias, lutos, incertezas e vidas profundamente alteradas por acontecimentos que nenhum de nós gostaria de viver.
A Madeira conhece bem o significado destes regressos. Viveu-o há poucos anos, quando milhares de emigrantes regressaram da Venezuela em consequência da crise que o país atravessava. Se alguns filhos da terra voltarem agora, regressarão em circunstâncias muito diferentes e com uma necessidade ainda maior de encontrar uma comunidade capaz de caminhar ao seu lado enquanto procuram reorganizar a vida e encontrar algum equilíbrio perante perdas que os acompanharão para sempre. É para esse tempo, que pode chegar em breve, que a Madeira precisa de estar preparada.
Isabel Santos in Tribuna da Madeira 19/06/2026




