E eis que chegamos ao mês de junho. Mês dos Santos Populares e do início do verão, estação associada à praia, aos convívios de final do dia. Junho significa também o epílogo de mais uma longa caminhada letiva que se iniciou em setembro do ano passado. 10 meses de aprendizagens, desafios. Mas, sobretudo, meses de construção da nossa Identidade Pessoal, Social, Cívica. A Escola há muito que deixou de ser apenas um edifício ladeado por 4 paredes e forrada com tabelas, mapas, anagramas, imagens, desenhos… A Escola ultrapassou os limites físicos e alcandorou-se numa dimensão virtual a uma velocidade vertiginosa.
A Sociedade atual está em constante transformação, sobretudo pela profusão de estímulos que nos surgem aos nossos olhos como se fossem fórmula milagrosa para alcançarmos mais rapidamente os nossos propósitos. Como se estalar os dedos significasse mudar o “estado das coisas”, num passe de magia qualquer que nos ilude e nos mantém presos a uma realidade que não conhecemos e insistimos na sua busca.
O propósito maior da Escola é a transmissão do conhecimento. E isso parece-nos claro e todos concordamos. Agora, a forma como é feita essa transmissão é que já diverge e remete-nos para um debate mais alargado que não é propriedade dos decisores políticos. A Escola e a Educação, no geral, não podem navegar ao sabor do vento. A rota tem de ser bem definida, pesando os prós e os contras, para que os nossos alunos deixem de ser marionetas/cobaias de experiências que nada têm a ver com a sua realidade, com o seu quotidiano. Os currículos, pensados em gabinetes e outros que tais, devem ser elaborados com recurso à opinião dos Professores – eles é que estão no terreno e vivem a realidade no dia a dia. São os Professores que melhor conhecem os alunos, quais as suas dificuldades, quais as suas expectativas, quais as suas motivações quando entram numa sala de aulas. Os programas curriculares não podem ser “copy paste”. Têm de ser redefinidos com base nas observações/avaliações efetuadas durante o ano letivo.
A educação na Madeira passa por uma metamorfose perigosa, perdendo docentes ano após ano e, sem a necessária reposição, obriga os que ficam no sistema a se desdobrar em funções que não são suas para assegurar o cumprimento dum serviço que deveria ser responsabilidade primeira da Secretaria Regional. Está à vista de todos que há, algures, uma vontade férrea de operacionalizar as normas legais aprovadas e, no que concerne à educação Inclusiva, existe uma pressão junto das escolas para cumprir o predisposto. E aqui surge o primeiro contrassenso: é para cumprir com que recursos? Infelizmente, as escolas não conseguem dar resposta eficaz porque não lhes são dadas ferramentas (humanas e materiais) suficientes. Andamos de remendo em remendo, procurando “coser” cada buraco com linhas gastas. Segundo os dados da Pordata de 9 de outubro de 2025, em Portugal tínhamos 7 vezes mais Educadores/Professores com idade superior a 50 anos por cada 100 Professores com idade inferior a 35 anos no ano letivo 2023/2024. No que diz respeito à Região Autónoma da Madeira, a Direção Regional de Estatística refere que dos 6030 docentes a exercer funções nas escolas, 16,1% tinha idade superior a 60 anos e que 36,8% tinham idades compreendidas entre os 50 e os 59 anos. Ora, são valores que deveriam preocupar a tutela, pois estamos perante uma classe docente envelhecida, desmotivada e cansada.
Por outro lado, não nos podemos esquecer dos alunos. A escola deve proporcionar ambientes de aprendizagem tranquilos, baseados na relação afetiva do Professor ao aluno. E para isso é urgente manter alguns pressupostos que estão na base do sucesso escolar. E o principal prende-se com os níveis de ensino: no pré-escolar, os bebés e crianças passam por um momento de provação ao verem-se afastados do seu núcleo familiar (aquele primeiro modelo de vida) e dividirem uma sala com estranhos; no 1.º ciclo, os alunos encontram no Professor o confidente, o amigo, o “faz-tudo”. É no Professor que depositam as suas maiores esperanças para os fazer crescer; depois temos o 2.º e 3.º ciclos onde os alunos iniciam a adolescência e procuram os primeiros sinais de emancipação. Existe uma maior organização escolar e os jovens são postos à prova quanto às suas responsabilidades. E por aí fora até ao final da escolaridade obrigatória.
Centremo-nos no 1.º ciclo. Existe uma clara intenção de acabar com a Monodocência e incorporar este nível de ensino no modelo vigente nos níveis superiores com vários professores e cada um com a sua disciplina. Será o mais correto? Estarão os alunos de 6/7 anos preparados mental e cognitivamente para enfrentar uma realidade compartimentada, de estruturas curriculares diferenciadas, com tempos contados ao segundo, ignorando-se o seu ritmo de aprendizagens. Justificam os decisores que é uma forma de rentabilizar recursos. Para quem? Para as crianças não será certamente porque lhes vai ser retirado o seu momento relacional, de afetividade, de compreensão.
Quem viveu o apogeu da Educação na Madeira dos anos 90 observa agora um claro desinvestimento, fruto de políticas recentes erradas. A redução do número de alunos não pode justificar tudo e as várias tentativas de se querer “inovar” sem Inovação trouxe a Educação da Madeira para o abismo. Urge repensar a escola, mas unir o pensamento com todos os agentes educativos. Modelo de Singapura? Com que critérios? Com que Objetivos? Insiste-se no erro de querer copiar realidades tão distintas da nossa! Opta-se pelo caminho mais fácil sem preparar “mantimentos” para a viagem. Fala-se na propalada Inovação Pedagógica, mas o que temos observado é mais Inovação Tecnológica com um absurdo investimento em tablets, manuais digitais e afins. Serão eles necessários? Sim! Mas adequados e complementares ao trabalho do Professor. O nosso Cardeal Tolentino Mendonça diz-nos que “A visão torna o mundo uma janela, mas percebemos que há outras dimensões igualmente fulcrais do olhar. A começar pela dimensão de reflexividade: o nosso corpo, que olha todas as coisas, pode também olhar-se; ele é ao mesmo tempo vidente e visível”. Porque, afinal, o maior investimento que a Educação deve fazer é nas pessoas. É na Dimensão Humana que está a nossa maior riqueza.
José Carlos Mota
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