O JPP deu entrada na Assembleia Legislativa da Madeira de um voto de louvor ao Bailinho da Madeira por este ter passado às semi-finais do concurso das “7 maravilhas da Cultura Popular” promovido pela RTP1, ressalvando o altruísmo e o profissionalismo do investigador calhetense Eugénio Perregil, o obreiro deste reconhecimento da cultura popular regional além-fronteiras.

Se há uma canção que poderia ser o hino oficioso da nossa Região Autónoma seria o Bailinho da Madeira. Longe das evocações das “mãos calosas” e dos “heróis do trabalho na montanha agreste” a lírica popular do Bailinho da Madeira fala do “venho de lá tão longe, venho sempre à beira-mar”, lembrando um tempo em que viajar até à cidade se fazia por mar, de cais em cais até ao destino, uma vez que as estradas existentes eram escassas e perigosas.

O autor desta canção, que é a canção madeirense mais popular de sempre, era um homem simples, do Povo, de seu nome João Gomes de Sousa (1895-1974) que ficou mais conhecido pela alcunha de Feiticeiro da Calheta. Um analfabeto formal, mas um homem da cultura popular, que através dos seus versos repentistas e sabedoria popular sabia interpretar bem as agruras e contradições do seu tempo, de uma sociedade quase feudal marcada pelo “ritmo” extenuante da colonia.

Os contornos da história do Bailinho da Madeira começam em 1938 por ocasião da primeira edição da Festa da Vindima que se realizou no Funchal. O objetivo deste certame era a angariação de donativos para acudir a Escola de Artes e Ofícios, atual Colégio Salesiano, que tinha sido vítima de um incêndio. De todos os pontos da ilha convergiram para a “cidade”, agricultores com os seus produtos e diversos ranchos folclóricos incluindo o Rancho Folclórico do Arco da Calheta, onde pontuava o “nosso” Feiticeiro da Calheta. É por isso que ele diz logo no início da canção “eu venho de lá tão longe…”. Efetivamente chegar ao Funchal nesse tempo significava uma epopeia marítima, vinda “de lá tão longe”.

O concurso realizado então no antigo campo do Almirante Reis ditou como vencedora a “cantiga” de João Gomes de Sousa. O sucesso foi imediato e como em toda boa história ainda tinha mais episódios para contar. Em 1949, Max e a sua banda, alegadamente sem o conhecimento do autor, pegam na cantiga e fazem o arranjo musical que deu a conhecer ao mundo o “Bailinho da Madeira”, gravando-a no estúdio da Valentim de Carvalho. Tal facto levou o Feiticeiro da Calheta a travar-se de explicações com Max. Ao que consta 20 escudos resolveu a contenda. Sendo assim, esta também é uma história de exploração e de usurpação da criação intelectual de um homem do povo.

“Seu encanto não tem fim, é filha de Portugal”, reza a canção do Feiticeiro da Calheta referindo-se à nossa encantadora ilha. O encanto deste Bailinho da Madeira também não tem fim e passados oitenta e três anos desde que foi apresentada pela primeira vez, a cantiga é tão fresca e alegre como outrora. A simplicidade é o objetivo maior da obra de arte.

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