O título deste artigo reflete uma questão que me preocupa e que me assalta o espírito sempre que tento pensar o sentido profundo e verdadeiro da função que agora exerço. É algo em que também penso amiúde quando vejo a prática política vigente.

Mas esta minha inquietação vem de longe. Vem do tempo em que, tendo estudado fora, regressei à Madeira por razões familiares e a ilha estava realmente diferente. Estradas, vias rápidas, edifícios novos, investimentos de utilidade e urgência duvidosa. Havia de tudo. Até havia uma certa ilusão de que tínhamos avançado, e avançámos realmente em muitos aspetos. Contudo, no momento em que quis regressar à minha terra e trabalhar cá, parecia não haver lugar para mim. Todos me diziam para voltar a partir, que aqui não havia futuro.

E não foi realmente fácil recomeçar na minha terra. E então eu olhava para tudo e questionava-me sobre o modelo e sobre as prioridades que foram tomadas. Como poderíamos ter avançado tanto à superfície e termos avançado tão pouco na profunda vida real, na vida das pessoas, na vida de quem quer viver condignamente na sua terra. E aqui o condignamente nem é com riqueza, mas com o básico: um trabalho e um ordenado que permita levar a vida em frente.

Entretanto, os anos passaram, e para quem, como eu, nunca se importou de arregaçar as mangas e trabalhar, as coisas foram-se compondo.
Anos depois, cheguei eu a funções políticas e públicas e encontrei, na suposta ilha do desenvolvimento social, do sucesso governativo, da autonomia exemplar, pessoas que, como eu, continuam a sentir que não há lugar para elas e pessoas que, não tendo possibilidade de ir ao encontro de uma vida melhor, vivem sem o mínimo e precisam de ajuda para quase tudo.

No caso em apreço essas pessoas que fui conhecendo vivem num concelho que foi governado durante mais de trinta anos pelo mesmo partido, num concelho em que esse partido deixou a Câmara na penúria e com uma dívida colossal que ainda estamos a pagar. E, apesar dessa dívida, estamos nós a ajudar, trinta anos depois e uma dívida depois, a tornar casas habitáveis, a ajudar a pagar contas, a ajudar no acesso aos medicamentos, a ajudar na realização de cirurgias pelas quais esperaram anos. Demasiados anos para quem precisava que o Estado, e neste caso a Região, tivesse uma resposta mais rápida, cumprisse a sua função, honrasse o seu trabalho.

E eu acho que a política não devia ser esta ilusão de que tudo está bem, quando não está. A política devia ser um trabalho e, nesse sentido, devia escolher para trabalhar as pessoas que são capazes, que têm provas dadas, que estão dispostas a servir e não a servir-se.
Mas olho em volta e não é isto que vejo. Vejo os partidos em lógicas que não são de serviço, a repescarem pessoas que não só não têm provas dadas, como têm provas em sentido contrário. E são esses que recebem apoios, e são esses que continuam a ser amparados. São esses que continuam a ter lugar nesta terra, enquanto que uma franja de esquecidos é metida para debaixo do tapete do suposto sucesso governativo.

E eu, passados tantos anos, continuo a achar que a política não devia ser isto. Que a política devia saber, a todo o momento, ser serviço, ser capaz de definir prioridades e importâncias, ser um motor de justiça, ser uma casa para todos.
Tenho a sorte de trabalhar numa equipa que tem da política a mesma noção que eu tenho. Mas era preciso sermos mais para fazer a diferença. Para fazer da política um lugar que vale a pena.

ÉLIA ASCENSÃO
Vereadora da Câmara Municipal de Santa Cruz

*Artigo de opinião publicado no JM / 31-07-2019

 

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