Pela primeira vez na Madeira, o partido que ganhou as eleições não consegue governar sozinho e está dependente de coligações e acordos pós-eleitorais.  Um cenário que não está isento de problemas e de negociações. De problemas porque há sempre aquela hipótese do eleitorado que votou num determinado partido não gostar de ver o seu partido se juntar a um outro que não foi a sua escolha. E este não gostar também está veiculado à forma como normalmente estas negociações decorrem. Na maioria das vezes, negoceiam-se lugares, vaidades, ambições pessoais e ambições partidárias.

Esta questão leva-me a pensar no que seria um acordo ou coligação aceitável e útil para o serviço à população, que deve ser o fim último de qualquer partido que se apresenta a eleições.

Uma coligação ou um acordo pós-eleitoral não devia, nesta lógica, obedecer a meras negociações de lugares, de secretarias, de vice-presidências, mas sim a uma negociação que tivesse como fim último o cumprimento de medidas e programas que pudessem beneficiar a população.

Ou seja, em vez de se negociarem estatutos pessoais, ambições particulares, e eventuais vontades de poder a todo o custo, deviam garantir-se que fossem resolvidos dossiers que interessam, que são imprescindíveis para o desenvolvimento coletivo de uma região ou de um país e para a melhoria efetiva das condições de vida da população.

Negociar lugares e ficar satisfeito com eles, é deixar cair as verdadeiras questões que devem orientar uma política de serviço público. Em vez de tratar da sua própria saúde, um político deve tratar da saúde de todos: em vez de tratar da sua própria economia, um político deve ter uma visão económica para todos; em vez de garantir o seu estatuto e o estatuto do seu partido, um político deve olhar mais além.

Concorrer a eleições não é uma corrida de obstáculos para chegar a uma meta pessoal ou partidária, é um percurso de trabalho, é acreditar num programa, é defender aquilo que se considera mais justo e é, sobretudo, querer fazer mais e melhor por aqueles que são chamados a escolher quem os vai representar.

Um político não se representa a si e aos seus interesses, um político representa um todo e esse todo que votou não pode, de repente, desaparecer sob um manto de negociações e ambições. Esse todo que votou, deve ser respeitado e honrado.

Coligações e acordos devem ser oportunidades para garantir que o programa apresentado à população e legitimado por esta com o seu voto seja cumprido pelo menos em parte. Governar fica para quem realmente venceu as eleições. Os que se predispõem a acordos e coligações devem zelar pelos interesses do seu eleitorado, não pelos seus próprios interesses.

Uma coligação e um acordo não deve ser uma oportunidade para chegar ao poder, mas para dar poder à população, ao programa apresentado e às prioridades que podem fazer a diferença na vida de todos e não apenas de alguns.

ÉLIA ASCENSÃO
Vereadora da Câmara Municipal de Santa Cruz

*Artigo de opinião publicado no JM / 25-09-2019

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