Temos ouvido recorrentemente dizer que a Sociedade Mundial adoptou um novo significado para as siglas AC e DC. Tal como no passado o ano Zero marcou a fronteira entre o que houvera Antes de Cristo e o que se passara Depois de Cristo, o ano 2020 ficará indelevelmente marcado pela Sociedade Antes COVID e Depois COVID. E este novo normal não encontra paralelo no Admirável Mundo Novo que Aldous Huxley nos presenteou no seu romance datado de 1932. O Novo Normal é tanto mais admirável pelas significativas mudanças que obrigaram a Sociedade em geral a pensar de outra forma.

A questão primordial passa pela seguinte premissa: será que todos devem pensar da mesma forma para um problema comum? Se no romance de Huxley, a personagem Bernard Marx sente-se insatisfeita com o mundo onde vive, em parte porque é fisicamente diferente dos integrantes da sua casta, inserido num reduto onde vivem pessoas dentro dos moldes do passado numa espécie de “reserva histórica”, a insatisfação que brotou após estes seis meses de Novo Normal obriga-nos a repensar a nossa acção social. Definir prioridades e actuar com raciocínio e lucidez.

Se a Ordem Mundial sempre se pautou por um avanço a duas velocidades (a dos países desenvolvidos em contraponto aos países subdesenvolvidos), o Novo Normal apresenta-nos uma realidade que mais parece uma caixa de velocidades de um veículo moderno: temos 6 velocidades e ainda não podemos ignorar a marcha-atrás. A juntar a isso temos um percurso sinuoso pela frente que nos obriga a uma destreza de pés e mãos na hora de utilizar a referida caixa de velocidades.

Estamos perante um dilema que nos faz pensar um pouco tal como Milan Kundera reflectiu quando nos apresentou a “Insustentável Leveza do Ser”. O peso do passado e o mito do “eterno retorno” de Nietzsche, complementado com as medidas de protecção que nos foram sugeridas, direcionam-nos para o tal Novo Normal. O que era Normal deixou de o ser numa “anormalidade” que ainda vai apresentando resquícios de resistência.

O mesmo se passa no Universo Educacional. As Escolas estão a adaptar-se às novas exigências, planificando novas formas de ensinar, revendo procedimentos e preparando-se para um reinício de ano lectivo que jamais será um “dejá vu” dos anos anteriores. A minha prática profissional, alicerçada em conhecimento adquirido nos mais variados níveis de ensino permite-me levantar uma série de questões que ainda estão por responder: serão as crianças em idade Pré-Escolar capazes de entender o Novo Normal? Os alunos do Ensino Básico estão preparados para as novas tarefas de Distanciamento Social e Higiene Pessoal? E os alunos do Secundário, supostamente mais instruídos, estarão aptos a desempenhar um papel mais proactivo de sensibilização social? E a Comunidade Educativa (Pessoal Docente, Não Docente e Encarregados de Educação)? Está preparada? É verdade que somos um Povo resiliente, de peito aberto às adversidades com uma capacidade imensa de nos adaptarmos, mas seremos como Tomé “Ver para Crer”.

Reservo uma nota final para uma população que me é querida e por onde gravita todo o meu empenhamento profissional e afectivo: Os alunos Especiais. Numa Era onde o “Salve-se quem puder” ganha notoriedade, torna-se evidente que esta população já de si vulnerável vai sentir maiores dificuldades em encontrar o seu espaço. A Agência Europeia para as Necessidades Especiais e a Educação Inclusiva elaborou um relatório onde elenca 5 grandes linhas de orientação para que estes alunos não sejam esquecidos. Desde logo a Intervenção Precoce deve ser mais eficaz, com recursos capazes de actuar com rigor; Depois há que rapidamente regular o Dec-Lei n.º 54/2018 que estabelece o regime jurídico da educação Inclusiva indo ao encontro do Relatório da Agência Europeia que admite um impacto social e educativo positivo na Educação Inclusiva; A necessidade de termos Profissionais altamente qualificados capazes de oferecer uma intervenção de qualidade nas áreas mais deficitárias; Sistemas de Apoio e Mecanismos de Financiamento regulados para que as necessidades ao nível dos recursos materiais e humanos sejam atendidas e, por último, haver uma fiabilidade nos dados e processos dos alunos para que os recursos sejam rentabilizados.

O Admirável Novo Normal passa, sobretudo, pela eficaz gestão dos “dinheiros públicos” e pela responsabilidade de quem tem de os aplicar no terreno. Se todos nós formos Agentes Sociais, o sucesso será de todos.

José Carlos Mota

Docente Especializado (Educação Especial)

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