1. Há um agricultor que continua à espera. Não de uma carta com a pensão prometida, como o coronel sem nome, mas de um sinal de que alguém ainda se lembra de quem cultiva esta terra. Todos os dias acorda antes do sol, sobe os poios, limpa as levadas, enfrenta o vento e percorre a vereda até ao terreno. E, tal como o velho coronel, continua à espera. A diferença é que, na Madeira, já quase ninguém passa pelo correio.
2. A agricultura madeirense vive desse mesmo tempo suspenso que Gabo transformou em literatura, no seu “realismo mágico”. Espera-se por apoios, espera-se por decisões, espera-se por políticas que quase sempre chegam tarde ou ficam pelo anúncio. Enquanto isso, os campos envelhecem com os seus donos. Os filhos partem, sem querer trabalhar a terra. Os socalcos degradam-se. E o silêncio instala-se onde antes havia trabalho.
3. Há uma ironia cruel na Madeira: orgulhamo-nos da paisagem que deslumbra quem nos visita, mas esquecemo-nos de quem a construiu. Cada poio, cada muro de pedra, cada bananeira ou vinha existe porque alguém insistiu em cultivar encostas onde parecia impossível nascer alimento. A paisagem não é um acaso da natureza: é uma obra coletiva de gerações de agricultores que desaparecem nas fotografias promocionais.
4. No livro de Gabriel, a espera nunca é apenas pela carta. É uma espera pela dignidade. Também o agricultor madeirense não pede privilégios. Pede apenas condições para continuar. Pede que produzir alimentos não seja um ato de heroísmo. Pede que o preço pago pelo seu trabalho seja um verdadeiro sinal de reconhecimento. Pede que governar seja, também, olhar para quem alimenta a ilha.
5. Dizemos querer preservar a identidade madeirense, mas uma identidade não sobrevive apenas em museus, festas ou campanhas de turismo. Sobrevive onde ainda se lavra a terra, onde a água continua a correr pelas levadas, onde alguém conhece o ritmo das estações melhor do que o próprio calendário. Quando desaparece um agricultor, desaparece uma parte dessa memória que nenhum investimento consegue reconstruir.
6. A dependência também se cultiva. Importamos cada vez mais aquilo que antes produzíamos, enquanto os terrenos férteis dão lugar ao abandono ou à especulação. Fala-se de autonomia, mas esquecemo-nos de que ela também começa na capacidade de alimentar o nosso povo. Uma ilha que perde os seus agricultores torna-se inevitavelmente mais vulnerável, mesmo quando vendemos uma economia pujante.
7. Não escrevo estas palavras por nostalgia. Escrevo porque ainda há tempo. Porque acredito que o futuro da Madeira não pode ser construído apenas para quem chega de férias, mas também para quem aqui trabalha todos os dias. O agricultor não precisa de monumentos. Precisa de rendimento e de uma estratégia que faça da agricultura uma escolha possível para uma nova geração.
8. No romance de Gabo, o coronel nunca deixa de acreditar que a carta acabará por chegar. Talvez essa seja a maior lição do livro: resistir, mesmo quando o silêncio parece definitivo. Mas a Madeira não pode continuar a pedir aos seus agricultores que vivam apenas de esperança. Porque um povo que deixa de escrever ao agricultor acaba, mais tarde ou mais cedo, por deixar de escrever o seu próprio futuro. Por tudo isto, e por muito mais, apoiemos a agricultura local: senão, acabaremos por comer aquilo que o próprio coronel vaticinou no seu final.
Nuno Freitas in Tribuna da Madeira 10/07/2026




