Pivot por um dia, um programa da RTP Madeira que nos traz alguém que aceita o desafio de encabeçar uma conversa com outros três convidados à sua escolha, sobre um tema do seu interesse. No dia 25 de setembro, o tema foi alimentação e o moderador o nutricionista Bruno Sousa.

Entre outros assuntos o que mais despertou o meu interesse foram as opiniões de Pedro Pereira, economista, que continua a achar que as mudanças necessárias nas dietas dos madeirenses far-se-ão por escolha livre dos consumidores, que segundo o mesmo fazem más escolhas porque carecem de educação, mas não podem ser condicionados nas suas opções com taxação tributária diferenciada porque estamos a coartar as suas liberdades. E deu exemplos. Ao taxarmos as bebidas açucaradas estamos a empurrar os consumidores das mais caras (supostamente mais saudáveis) para as bebidas açucaradas mais baratas, porque nenhuma mãe que se preze deixa de ter em cima da mesa um sumo ou refrigerante para acompanhar a refeição. Eu diria que a cegueira ideológica leva as pessoas a cair no ridículo. Não acredito que uma pessoa capaz de articular tão bem um discurso seja burra, mas há qualquer coisa que manifestamente não bate certo. O Dr.º Rui Silva, médico presente no debate, muito respeitosamente elucidou o economista para uma solução educada e sustentável – água do cano.

A água que sai das nossas torneiras é de qualidade, nutre mais do que qualquer bebida engarrafada (inclusive água) sem os malefícios perniciosos do plástico de uso único e é muito mais barata ao litro. Um economista que se preze devia sabê-lo, mas o crescimento económico das empresas que representa é valor maior. Este economista, se entendesse alguma coisa sobre economizar, não defenderia as opções desinformadas dos consumidores ao ponto de afirmar que o aumento de tributação sobre alimentos prejudiciais equivale a uma perda de liberdade – acenando a bandeira do comunismo de forma dissimulada. Foi tão longe na ameaça das liberdades individuais que meteu no mesmo saco a alimentação desregrada e a prática de ski (esse desporto tipicamente madeirense), garantindo que o praticante de ski quando sofrer o inevitável acidente catastrófico (devia estar a referir-se a Michael Schumacher), vai esgotar mais recursos do Sistema Nacional de Saúde (SNS) do que a malta obesa e sedentária (na qual o mesmo se inclui) que sofre de doenças degenerativas crónicas. Eu se fosse empresário e precisasse de um economista já sabia com quem não contar. Comparar os custos que o SNS tem com doenças crónicas, comprovadamente associadas a hábitos de consumo e atividade física inadequados, aos custos que o mesmo SNS tem com as vítimas dos acidentes de ski, é no mínimo infeliz e seria cómico se não fosse tão trágico, pois estes indivíduos são conselheiros dos nossos políticos na hora de definir estratégias de fundo para o futuro.

As mudanças que urgem nos nossos hábitos de consumo têm de ser condicionadas (todos somos fruto de condicionalismos). Por um lado, a escola tem de ensinar/ incentivar os miúdos a plantar, cozinhar, alimentar-se e mexer-se, por outro, o governo tem de garantir que os alimentos mais nutritivos são mais acessíveis, que os produtores agrícolas locais têm escoamento garantido e que a população em geral tem acesso a melhor informação.

Acabei de ouvir na rádio um anúncio a uma “deliciosa” pizza, que alegadamente supera a comidinha da mamã. É este o caminho??

BRUNO PESTANA
Enfermeiro

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