Após diversos contactos com produtores de cana-de-açúcar, mantidos nos últimos dias, o JPP voltou a se deparar com um sentimento de revolta com a proposta avançada pelo Governo de apenas 40 cêntimos por quilo de cana.
São cada vez mais os industriais do sector que se queixam de falta de cana-de-açúcar, falando em ruturas de stock dos produtos derivados, em aumento do preço final ao consumidor e de necessidade de recorrer a produtos do exterior, com notória diminuição da qualidade. São praticamente unânimes a confirmar o crescimento comercial dos produtos, mas com falta dramática da matéria-prima que condiciona a abertura a novos mercados externos.
Do lado da produção, são cada vez mais os agricultores que nos transmitem a sua intenção de abandonar a atividade, face aos preços acordados pelo Governo que, segundo muitos, lembram a “escravatura”.
Qualquer aumento é sempre bem-vindo, mas não deixa de ser caricato que, numa completa alienação da realidade, a ainda Secretária Regional de Agricultura, Rafaela Fernandes, em reunião com os operadores económicos, tenha vindo a público anunciar um irrisório aumento de uns míseros 4 cêntimos (com 2 cêntimos anunciados pelos operadores económicos), quando estes produtores de cana-de-açúcar enfrentam aumentos que duplicaram os valores dos adubos e dos remédios agrícolas (produtos fitofarmacêuticos), mas também trouxe aumentos consideráveis na mão-de-obra agrícola, consequência da enorme inflação que atingiu este sector.
Não deixa de ser também vergonhoso que para esta reunião que, segundo a governante tinha como objetivo “encontrar uma posição de consenso relativamente ao reforço do rendimento dos agricultores de cana-de-açúcar” se tenha “esquecido de convidar” os principais interessados na produção e comercialização deste produto – os próprios agricultores de cana-de-açúcar.
Esta ausência premeditada dos agricultores, principais visados neste processo, demonstra à partida, a farsa neste alegado “consenso”, o enorme desinteresse em tomar conhecimento da situação e, principalmente, em trazer medidas que solucionem, de uma vez por todas, a situação que aflige cerca de 1300 pessoas que dependem diretamente da produção de cana-de-açúcar.
Criticamos muito a inércia do anterior executivo perante o desespero que atinge o sector agrícola e, em particular, a cana-de-açúcar, mas continuamos perante uma clara “situação de forretice” que não faz qualquer sentido.
É uma situação que não faz qualquer sentido, principalmente quando se fala em “anos recordes” na venda de mel de cana e de aguardente, e quando foi o próprio governo a avançar que as vendas de rum agrícola aumentaram de 2 para 5,2 milhões de euros em dois anos.
Então se o valor do rum da Madeira mais que duplicou em dois anos, não faz qualquer sentido que esse aumento não se reflita também, e de uma forma direta, no bolso dos agricultores.
E é neste sentido que o JPP voltará a insistir na necessidade de um apoio extraordinário que permita acabar com esta escravidão crónica e que permita um pagamento de 45 cêntimos, um preço justo, que acompanhe o custo de vida e as grandes dificuldades sentidas pelos agricultores.
Rafael Nunes, vice-presidente grupo parlamentar JPP



