Em março deste ano, Miguel Albuquerque fazia loas aos números mágicos do PIB Regional defendendo que “o crescimento económico é essencial para a justiça social”. Enquanto o presidente do Governo se deleitava com os “recordes” macroeconómicos, sustentados sobretudo por uma pressão turística e pela ausência de uma estratégia equilibrada para o setor, os madeirenses continuavam à procura dos resultados práticos das folhas Excel do Governo PSD/CDS.
Enquanto o PIB sobe, os madeirenses são confrontados com o aumento dos custos de acesso à habitação, com os combustíveis a disparar, com as listas de espera e a crise na Saúde a agudizar-se, enfim, um cenário de subida acentuada do custo de vida que os salários reais não conseguem acompanhar.
Na Assembleia Legislativa Regional, a bancada da maioria continua na sua senda propagandística, vendendo a ideia de uma Região num trajeto de sucesso assente em indicadores económicos e números macroeconómicos capazes de fazer suspirar os mais românticos economistas da tecnocracia. A narrativa assente na subida do PIB, na alegada redução da taxa de risco de pobreza e na acusação feita ao JPP de apenas querer transmitir que “está tudo mal na Madeira”, colide frontalmente com a realidade vivida pelos Madeirenses. É um paradoxo.
A prova desse paradoxo surgiu ainda esta semana com a notícia de que a inflação atingiu os 5% em junho deste ano na Região. Um valor muito acima da média nacional (3,2%) que demonstra o fracasso deste governo em proteger o poder de compra dos madeirenses e que sempre se demonstrou mais preocupado com os números do que com as pessoas. A proposta do JPP para redução do IVA chumbada pela maioria PSD/CDS teria certamente atenuado este cenário.
Sempre que Albuquerque exaltava os números do PIB, eu afirmava em tom de brincadeira que “não como sandes de PIB”. Mas hoje acho que a situação já nem merece ser tratada com humor e deve ser olhada com urgente e séria preocupação.
O problema já vai muito além da incompetência e incapacidade do Governo Regional PSD/CDS. Vai além da obsessão pelo golfe e pela massificação turística que ameaça a nossa própria “galinha dos ovos de ouro”. Estamos perante uma crise crónica que vai moendo cada vez mais os orçamentos familiares e o bem-estar social dos madeirenses.
Os aumentos das rendas, dos combustíveis e bens essenciais, não são apenas reflexo das opções políticas deste governo, são também a manifestação de 50 anos de PSD à frente dos destinos da Região, em que os problemas estruturais perduram e teimam em agravar-se.
De campos de Golfe a teleféricos, tudo o que é acessório parece ser de importância extrema para o PSD, enquanto os madeirenses sofrem na pele e na carteira as consequências desta oligarquia laranja devota aos monopólios. Na Madeira não há margem para as pessoas, mas há sempre margem para o betão e para a propaganda.
Hoje no Chão da Lagoa, certamente será pintado um cenário “cor-de-rosa”, perdão, “laranja”, onde tudo corre bem, onde os recordes se sucedem e onde os culpados de todos os problemas estarão, como sempre, em Lisboa ou no JPP. Enquanto isso e fora do palco, longe dos discursos e das bandeiras, a realidade permanece: uma Madeira cada vez mais cara para viver, com jovens empurrados para “as furnas” ou para fora da Região, idosos votados ao abandono, salários baixos, classe média empobrecida e um quotidiano cada vez mais difícil para milhares de madeirenses.
Fábio Pires
– A responsabilidade das opiniões emitidas nos artigos de opinião são, única e exclusivamente, dos autores dos mesmos, pois a defesa da pluralidade de ideias e opiniões são a base deste espaço criado no site;
– Os posicionamentos ideológicos e políticos do JPP não se encontram refletidos, necessariamente, nos artigos de opinião contemplados nesse mesmo espaço de opinião.




