Há regressos e regressos

​Terminado que está o período anual de férias para a maioria dos Professores, eis que chega setembro com renovadas energias, altas expectativas e uma vontade férrea de continuar uma luta desigual contra o sistema que teima em desvalorizar o papel docente. 

Setembro significa regresso. Um pouco por todo o País, o final de agosto e início de setembro veste-se de “azáfama” com os nossos emigrantes a regressar à terra que escolheram para dar seguimento à sua estabilidade profissional, familiar e social. Os aeroportos nacionais enchem-se de pessoas e fervilha no ar a saudade dos dias de ócio passado em cada recanto, rua, praça ou cidade deste nosso torrão natal que podia ser maravilhoso. Nesses mesmos aeroportos, misturados com os emigrantes e turistas, encontram-se os professores que regressam aos arquipélagos adjacentes ao continente e que, apesar do menosprezo do governo central, ainda são Portugal.

​O ano letivo que se aproxima vem embrulhado de muitas dúvidas. Parece um daqueles invólucros dos “chupa-chups” que irrita na hora de desembrulhar. As mudanças no sistema educativo regional começaram a ser desvendadas ainda mal o ano letivo anterior não tinha terminado. Às suspeitas de previsíveis alterações no funcionamento das escolas, juntou-se a certeza no início de agosto com a divulgação das listas de colocação dos docentes nas Zonas Pedagógicas… Um verdadeiro presente envenenado que saíu da Secretaria Regional da Educação!

​E, como se isso não bastasse, temos mais outra mudança em curso e que diz respeito à Educação Especial. Aprovado em Assembleia da República, temos então uma profunda revisão ao Decreto-Lei 54/2018 com novos procedimentos, novas abordagens e novos percursos. Desde logo, surge-nos a criação do Sistema Nacional de Apoio à Inclusão (SNAI) que o Governo entende ser a melhor estratégia para dar uma resposta integrada às reais necessidades das crianças e jovens. 

O que falta saber aqui é de que forma pretende o Governo operacionalizar essa mesma resposta? Com que recursos? Qual a organização pedagógica subjacente à aplicação das novas regras? E, como se isso não bastasse, vem aí a pérola: a criação de um documento único chamado de Plano de Desenvolvimento Integral (PDI) cujo o objetivo é normalizar documentos e evitar dispersão dos anteriores documentos (RTP, PEI, PIT). Mais uma falácia, porque os parâmetros de monitorização e implementação estão lá todos. Ou seja, gasta-se menos papel, mas a burocracia mantém-se.

Para completar o ramalhete, a “salsada” habitual à moda de Portugal: O GESTOR. Pois bem, se anteriormente o docente especializado chamava a si a gestão dos casos com conhecimento à Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva (EMAEI) e, identificados novos procedimentos, poderiam avançar os técnicos superiores, agora passaremos a ter Dois Gestores de Caso (que confusão!), sendo que o docente especializado responsabiliza-se pelo aluno no contexto escolar com conhecimento à EMAEI, mas se esse aluno necessitar de apoio completar externo à escola passa a ser acompanhado pelo gestor da Equipa Local de Apoio à Inclusão (ELAI). UFA!!! Pretende o Governo, através do Ministério da Educação, garantir melhores recursos e adaptar os mesmos às necessidades dos alunos?

​O que me parece é que continuamos a prejudicar esta “população especial” de alunos através de experimentalismos que ninguém ainda conseguiu perceber. Esses alunos continuam a ser “marionetas”, reféns de decisões de gabinete sem acautelar a realidade das nossas Escolas e as dificuldades na contratação de especialistas para trabalhar com esses alunos. As Escolas andaram 8 anos a implementar e melhorar o Decreto-Lei 54/2018, recaindo, sobre os docentes especializados, as reformulações necessárias para uma melhor intervenção e, como que num passe de mágica, o Governofaz: Puff!!!… e tudo volta ao início. A Educação jamais pode ser um “Jogo do Monopoly” onde as peças se movem ao sabor dos dados e a cada erro volta-se à casa de partida. A Educação é um assunto sério que merece um debate alargado entre todos os agentes educativos. Não pode ser cativa de uns parcos iluminados que se julgam donos da sabedoria.

​Mas tudo isso só estará em vigor no próximo ano, em janeiro de 2027. Até nisso existe aqui uma incongruência… desde quando pode haver período de transição e mudar-se a legislação a meio dum ano letivo?!?! É caso para dizer: as Escolas têm o baralho de cartas e os Professores baralham e baralham-se com tanta burocracia. E se queremos serenidade nas nossas Escolas, Professores comprometidos e Alunos motivados, não podemos andar a navegar num barco sem rumo. Precisamos todos (Escola, Professores, Técnicos, Pessoal Não Docente, Alunos e Famílias) de orientações concretas. Qual GPS invisível que nos conduza às melhores práticas e às eficazes respostas a dar aos nossos alunos.

Um aparte, no meio desta amálgama legislativa, falta saber como será aqui, na Região Autónoma da Madeira, pois a Autonomia que a nossa Secretaria detém permite-lhe organizar as coisas dentro da nossa realidade social/educacional.

​É este setembro que vamos encontrar no regresso às nossas escolas. Se para uns, o regresso é pacífico, para outros o regresso está nos segredos dos Deuses… Porque há regressos e regressos, há idas e voltas, nas voltas que o Mundo dá!


José Carlos Mota

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