Neste fim-de-semana, celebra-se em Machico, com as limitações impostas pela pandemia da COVID-19, a festa religiosa em louvor do Santíssimo Sacramento, que coincide com a tradicional Festa dos Fachos.

A tradição dos fachos está profundamente enraizada na cultura popular e tem uma enorme carga simbólica e religiosa para a população de Machico, sendo uma manifestação de identidade cultural ímpar na ilha da Madeira.

O acender dos fachos remonta à época das invasões dos corsários e piratas ao Arquipélago da Madeira, no século XVI, XVII e XVIII e surgiu pela necessidade urgente de planear e executar estratégias de alarme e defesa da orla costeira, das populações e bens.

Os homens destacados em missão nas vigias para acender os fachos eram apelidados de facheiros que tinham a obrigação de ter lenha e pinhas no cimo do Pico do Facho, para atear fogo com o objetivo de alertar a população machiquense das investidas dos piratas, ordenando a todos que pegassem em armas ou se colocassem em fuga.

Com a evolução das estratégias militares os fachos perderam a sua função primordial, de defesa da costa do Arquipélago da Madeira, mas em 1903, no decorrer das comemorações da Festa do Santíssimo Sacramento, a noite foi abrilhantada com o acender dos fachos em honra e agradecimento pela proteção divina.

É no último sábado do mês de agosto, noite das celebrações da Festa do Santíssimo Sacramento, que os fachos iluminam as encostas do Vale de Machico e cada sítio da freguesia investe a sua mestria e criatividade no seu facho, produzindo um espetáculo de luz aliado à devoção ao Senhor.

Os fachos são elaborados com pelo menos dois dias de antecedência, por grupos de homens de diversos sítios do concelho, com arames, pregos, óleo queimado e bolas de algodão. As imagens representadas nas estruturas, muitas delas com mais de 10 metros de altura, são barcos e símbolos religiosos para homenagear o Redentor. Ouve-se o soar dos búzios junto ao fogo dos fachos, que faz reviver o que outrora foi o alerta às populações de ataques eminentes dos corsários.

O espetáculo é assistido por milhares de pessoas, residentes e não residentes, agregadas nos espaços públicos do Concelho de Machico, no entanto este ano será celebrado com todas as normas de segurança e com as limitações impostas pela pandemia. Infelizmente não há nenhum facho capaz de alertar para esta nova ameaça…

Esta tradição centenária será cumprida, graças ao trabalho incansável e tão peculiar levado a cabo pelo povo de Machico, que não deixará esbater esta grande manifestação da sua identidade, passando de geração em geração.

Caberá às instituições com responsabilidade direta nas políticas de desenvolvimento, fomentar a promoção da “Festa dos Fachos” de forma a conquistar um espaço próprio no turismo regional. A participação meritória dos Fachos no concurso das 7 Maravilhas da Cultura Popular, terminou neste fim-de-semana, mas já é um indicativo que o percurso já se iniciou.

JÉSSICA TELES
Gestora Cultural

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