Os problemas na saúde estão identificados há muito:

Listas de Espera que crescem de ano para ano, seja porque as intervenções que se fazem são em número insuficiente, seja porque uma população envelhecida requer maiores cuidados;

– Uma rede de Cuidados Primários no Funchal que não dá resposta em tempo útil a situações urgentes de menor gravidade, onde há carência de médicos de família e de uma estrutura específica para episódios não programados;

– Um Serviço de Urgência de fim de linha que recebe todos os casos urgentes encaminhados dos 10 concelhos que não o Funchal e simultaneamente tem de dar resposta aos utentes da capital, independentemente da gravidade dos quadros apresentados;

– Uma rede de apoio a situações de alta clínica que não responde, em tempo útil, a dezenas de Altas Problemáticas que invariavelmente vão-se acumulando nos serviços de internamento;

– Internamentos muitas vezes prolongados pela resposta ineficaz de alguns profissionais, falta de materiais, falta de medicamentos, dotações específicas inadequadas, etc, sendo importante não omitir o crescente Conflito de Interesses que existe entre a prática no público e no privado.

Há interesses instalados na Saúde, mas fica mal pessoalizar a coisa. É suicídio político apontar dedos e pode levar ao banco dos réus. Assisti a um debate na RTP Madeira, onde alguns dos deputados presentes – falando de interesses instalados – apontaram espingardas ao edifício para tratamento de lixo hospitalar através de micro-ondas, que está ao abandono na entrada sul do Hospital Dr. Nélio Mendonça. Outro apontamento visou o registo biométrico para controlo de assiduidade, que deixou há muito de funcionar (aliás, nunca funcionou plenamente) e dizem as más línguas que é para não comprometer o exercício no privado.

A exposição dos sinais de que isto vai mal não é difícil, eles são bem visíveis. Difícil é identificar a causa da doença. Hercúlea será a tarefa de a tentar debelar (à doença) porque tem raízes na nossa cultura e nada é mais trabalhoso do que tentar mudar hábitos enraizados.

Diria que o problema começa no primeiro aniversário, o dia em que passamos a ter liberdade para celebrar a vida sem restrições e vêm os bolos, rebuçados, sumos e pudins, é dia de festa! Continua vida fora com tudo o que é celebração a ser palco dos maiores atentados nutricionais que se possam imaginar e passamos a celebrar a Vida com alimentos e bebidas que aceleram o processo de Morte. É um contrassenso, mas não se podem apontar dedos aos hábitos alimentares de potenciais eleitores, fica feio e não dá votos.

Os próprios médicos são vítimas das elevadas expetativas sociais que condicionam o seu sucesso… e o sucesso de um médico deve materializar-se na ostentação de bens luxuosos. Assim reza a história, assim se perpetuam hábitos culturais.

Derramar mais dinheiro na Saúde é paliativo, não é solução – a Madeira já é a região do País que mais gasta em “Saúde”. Sensibilizar as pessoas para mudanças profundas nos seus hábitos de vida poderá ser suicídio político, mas a sustentabilidade do sistema requer a colaboração e empenho de todos. Correntemente os dedos políticos lutam em círculo fechado… assim, não vamos lá!

BRUNO PESTANA
Enfermeiro

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