Há muito que se debate o peso da abstenção, com maior ênfase nas eleições europeias, onde todos bradam aos céus, para que do alto venha uma solução milagrosa que aproxime a população das mesas de voto.

As soluções não são simples e existirão vários caminhos, inclusive o do voto obrigatório, no qual não me revejo. Das soluções que conheço e comungo, apresento duas para escrutínio dos que me lerem.

A que mais me mobiliza e apaixona é a do culto da cidadania no mais democratizado veículo que conheço – a Escola. Há uns anos “descobri” uma escola pública no território continental que tem um paradigma educativo “alternativo”, uma escola com soluções fora da caixa e com resultados estigmatizados. Esta escola de que vos falo é a Escola da Ponte. Para além duma educação focada no prazer de ensinar e aprender é uma escola que educa para a cidadania, materializando-a nas suas regulares assembleias de alunos. Estas (assembleias) ensinam o Saber Estar no debate (ensinamentos que seriam úteis a muitos dos deputados regionais em exercício), incorpora no léxico dos alunos termos habitualmente ausentes (assembleia, mesa da assembleia, reunião ordinária / extraordinária, ordem do dia, deliberações executivas/ legislativas, etc), e responsabiliza os intervenientes quanto aos conteúdos apresentados, aproximando-os dos problemas quotidianos da escola e mobilizando-os para a solução dos mesmos.

Esta solução tem inúmeras barreiras das quais enumero duas: o modelo de gestão da escola – centralizado e hierarquizado, a antítese do espírito democrático; e a morosidade a que estará implícita a apresentação de resultados duma medida de médio-longo prazo, que colide com os interesses da partidocracia focada na pressa do ciclo legislativo. O tempo de flexibilidade curricular aplicado desta forma seria – na minha opinião – de utilidade extrema para o culto da cidadania ativa numa sociedade que se quer democrática. Familiarizados com o processo através da participação no mesmo (aprender Fazendo), a democracia deixará de ser apenas um conceito teórico e ganhará raízes para a vida.

Alternativamente ou paralelamente, há que modernizar um processo eleitoral fossilizado que é em si mesmo um grande sorvedor de dinheiros públicos (modelo encapotado de gratificação de fidelidade partidária), seja pela possibilidade do voto on-line através de plataformas digitais, seja pela adoção de modelos de contagem de voto como o Irlandês, onde o voto não é único, mas sim preferencial.

Não existem receitas mágicas, mas as poções que nos oferecem os políticos de sempre, são mais Kryptonite que magia empoderadora.

BRUNO PESTANA
Enfermeiro

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