Vivam as férias 

Chegamos ao mês de julho e volta à baila a novela das férias dos professores. Parece que é tradição em Portugal se falar das férias dos professores. São artigos de opinião, são publicações facebookianas, são fóruns e debates. A própria Comunicação Social reserva páginas, programas e painéis com convidados para falar das férias dos professores.

E isso é particularmente relevante na medida em que se chega à conclusão que os PROFESSORES são, realmente, uma classe importante no panorama educativo, social, económico e político nacional. Não houvesse essa importância, certamente não se gastaria tempo a falar das férias dos professores. Qualquer profissão tem direito a usufruir do seu período legal de férias, consequência do seu trabalho laboral anual que obriga a um período de descanso físico e emocional. Sem demérito e sobranceria, também é certo que existem profissões e profissões. Umas mais desgastantes do ponto de vista físico, outras mais penalizantes do ponto de vista emocional. Mas certamente concordarão que muitas poucas profissões conseguem congregar em simultâneo os dois “desgastes”: físico e psicológico. E uma delas é a profissão docente.

Os professores, para além das funções principais que desempenham, são como o “Homem dos 7 instrumentos”: ensinam, educam, ouvem lamentos, substituem os pais, fazem comédia, psicologia, choram e riem com os alunos. São Arautos da Esperança. As crianças depositam todas as “fichas” nos professores; os pais remetem as responsabilidades para os professores; a escola exige trabalho aos professores; os governos menorizam os professores. E se isso não bastasse, a PEDAGOGIA tem vindo gradualmente a perder espaço nas escolas para a BUROCRACIA. Os professores perdem a sua identidade e essência: deixam de ser pedagogos para se tornarem burocratas. Até matrículas já fazem, absorvendo parte do seu tempo para questões administrativas que jamais deveriam ser da sua responsabilidade. 

A ESCOLA há muito que deixou de ser um espaço de conhecimento, de aprendizagem, de saber. A Escola é agora um recurso. Não sabe o que fazer com o seu filho? Ponha-o na Escola! Precisa de descansar? A Escola está aberta das 7h30 às 18h30! O seu filho está “malcomportado”? A culpa é das Escola e dos Professores! Quantas vezes já ouvimos esses lamentos? É claro que não podemos nem devemos generalizar. Porque existem boas e más Escolas, tal como existem bons e maus professores ou bons e maus pais. 

Erasmo de Roterdão afirmou que “A primeira fase do saber é amar os nossos professores”. Nada mais certo porque a profissão docente exige que se crie uma base de confiança entre toda a comunidade educativa e que a articulação entre a Escola e a Família seja a pedra basilar do sucesso dos nossos alunos. A aprendizagem não se resume aos manuais escolares, aos tablets ou aos quadros interativos. Aprende-se nas relações sociais, no contacto diário, na observação do mundo que nos rodeia. Aprende-se a brincar e brinca-se a aprender. Há todo um universo dentro das Escolas que é impossível de quantificar. Há desgaste físico e psicológico dentro das Escolas que não transpira para a Opinião pública. Há pressões e exigências dentro das Escolas que “adoecem” quem lá trabalha. Os pais apontam o dedo e esquecem-se que apenas têm um filho para cuidar enquanto que os professores têm 15/20/25 “filhos” à sua responsabilidade. Os pais apontam o dedo quando recebem “recados” na caderneta e esquecem-se que o bem-estar dos seus filhos não se compensa com bens materiais. Os pais apontam o dedo ao horário dos professores e esquecem-se que o trabalho do professor vai muito além das funções letivas e que existe muito mais a fazer fora das 4 paredes da Escola. Os pais apontam o dedo quando os professores fazem greve e esquecem-se que a GREVE é um direito de qualquer trabalhador. 

E o que preocupa mesmo são as férias dos professores. Esses “vadios” que têm 3 meses de papo ao ar. Que estão sempre a reclamar por tudo e por nada. Aqueles que ganham bem e estão sempre a fazer choradinho. Vivem à “grande e à francesa” e se quiseram ser professores agora têm se “aguentar”. E o que se questiona é: Se ser Professor é assim tão bom, porque é que há falta de Professores e os nossos jovens fogem da docência como o diabo foge da cruz. Sintomático!

Mas as férias existam e quanto a isso nada há a fazer. Aproveitemos as férias enquanto pudemos usufruir delas. Porque há Férias e Férias. Vivam as Férias!\



José Carlos Mota

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