A nossa memória não deixa esquecer os incêndios que têm assolado a nossa região, particularmente o último, no passado mês de agosto, que trouxe a desgraça à casa de muitas famílias. Serve de pouco dizer que estas foram todas realojadas, que têm roupas e bens de primeira necessidade, que a sua vida voltou ao normal. A verdade é que consolar as dores do corpo e da alma é algo de muito difícil, cujas verbas financeiras, bola de arremesso entre poder político regional e nacional, são insuficientes para cicatrizar a dor de perder o que tem valor incalculável.
Hoje, apraz-me relatar sobre um projeto que se inicia pela mão da Proteção Civil Municipal do Funchal, cujo desenvolvimento tem a colaboração de diversos técnicos da respetiva Câmara, e que se intitula Unidades Locais de Proteção Civil (ULPC).
Não sendo um projeto inédito no nosso país, começa finalmente a ganhar forma, num trabalho que se prevê conjunto com as juntas de freguesia. Estas organizações comunitárias voluntárias terão lugar, nomeadamente, nas áreas já sinalizadas como de alto risco no que concerne a situações de catástrofe, com vista a tornar mais eficientes os mecanismos de prevenção e minimização destas situações, reconhecendo formalmente o trabalho já desenvolvido, de forma espontânea, ao longo dos anos, pelos residentes dos respetivos sítios.
As ULPC pretendem consciencializar a população para a importância da prevenção e minimização dos riscos inerentes à sua localidade, identificando-os, assim como dotar os seus elementos de competências para intervir no pós-catástrofe. Ser-lhes-á disponibilizado equipamento de auxílio que lhes permita intervir em situações de risco eminente e, alegadamente, até à chegada dos meios de socorro.
No Funchal, segundo a informação disponibilizada à população, basta ser residente na localidade e/ou voluntário para integrar uma ULPC. Curiosamente, no continente essa seleção é mais restrita: os voluntários têm que merecer a confiança da Junta de Freguesia, as equipas têm número limite de membros (?), os mesmos têm que ser possuidores de idoneidade inquestionável, não podem ter sido condenados por crimes de fogo posto ou ofensas, têm que ser conhecedores dos territórios da freguesia e devem ser maiores de 18 anos.
Por fim, não posso deixar de manifestar a preocupação de que isto venha a ser uma estratégia para justificar a real e constante ausência de meios de socorro a tempo e horas nas localidades periféricas do concelho do Funchal, deixando a responsabilidade para um grupo menos preparado de populares e lavando as mãos para o que deveria ser uma intervenção prioritária em zonas já sinalizadas há muitos anos mas que, por estranho que pareça, são sempre deixadas “para o fim”, quando os recursos humanos e materiais já estão esgotados e a população fica entregue, uma vez mais, à sua sorte. Porém, recebamos de braços abertos esta medida pois todos somos poucos quando o inimigo, água ou fogo, é bem mais forte do que nós.
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