A SIC transmitiu, há uns dias, uma reportagem sobre a igualdade de género com alguns dados bastante relevantes e não estou apenas a falar dos dados estatísticos.
A reportagem tem início com uma plateia de jovens entre os 15 e os 17 anos, e, logo aí, fica dado o mote. Quando um dos rapazes é questionado sobre se sabe como cozinhar arroz a ala feminina rebenta numa única e uníssona gargalhada.
O curioso é que o rapaz até sabia como cozinhar arroz, o trágico é que as raparigas foram as primeiras a admitir, com o riso, que aquela não era uma tarefa para rapazes.
A reação inicial explica o resto. Ou seja, explica que 72% dos homens consideram que as mulheres estão mais aptas a desempenharem tarefas domésticas, e que, pasme-se, mais de 80% das mulheres também se consideram mais aptas para tais funções.
Não será abusivo concluir-se que se ainda não há igualdade em casa, se as tarefas não se realizam pelos dois membros do casal, é porque os homens consideram que esse é um trabalho de mulheres, mas sobretudo é porque as mulheres, ainda para mais em maior número, também pensam o mesmo.
A reportagem continua com números, mas também com testemunhos vários. Confesso, contudo, que o que mais me chocou foi o depoimento das jovens que se encontravam em estúdio. As mesmas que se riram perante a pergunta sobre se um rapaz sabia como cozinhar arroz, foram as mesmas a confessar que em casa a mãe é que se ocupa das tarefas domésticas, enquanto que o pai fica por ali a ver a televisão ou a ler o jornal, mesmo que ambos tenham regressado do trabalho, onde cumpriram as mesmas oito horas diárias.
Mais chocante, contudo, é ver as jovens afirmarem que as mães exigem que elas façam trabalhos que não são exigidos aos irmãos. Ou seja, enquanto que uma rapariga é suposto arrumar o quarto ou lavar a loiça, tais tarefas raramente são exigidas aos rapazes. Mais ainda, havia algumas das raparigas que admitiam cumprir ordens dos irmãos, sejam eles mais novos ou mais velhos. Isto por entenderem como natural que estes lhes peçam, por exemplo, para engomar algumas das suas peças de roupa.
O que mais me preocupa neste cenário, é ver que existem aqui padrões diferenciados de educação face ao sexo dos filhos, e que estes parecem pacificados com a manutenção dessa mesma diferenciação.
Num momento em que se começam a esbater as diferenças entre homens e mulheres no mercado de trabalho, não faz sentido manter essas diferenças em casa, institucionalizando tarefas femininas e tarefas masculinas.
É que, a bem da verdade, a única tarefa que, numa família, pode apenas ser desempenhada por uma mulher é a de gerar um filho no ventre durante nove meses. Nas restantes tarefas, tanto homens como mulheres estão aptos física e intelectualmente a realizá-las.
Daí que não faz qualquer sentido manterem-se redutos masculinos e femininos dentro de portas. Sobretudo não faz qualquer sentido que uma geração que admitiu a existência dessa separação de tarefas, continue a cultivar o mesmo modelo em relação às novas gerações, muito menos através de modelos educacionais que criam diferenciação segundo o sexo dos filhos.
Esta é uma revolução a fazer dentro de portas, em nome da igualdade de género. Uma revolução que depende de todas e cada uma de nós.
Gostaria de, daqui a alguns anos, assistir a um programa semelhante em que raparigas de 15 ou 17 anos se rissem do facto de um rapaz não saber cozinhar arroz e não do facto de alguém os questionar a esse propósito, como se fosse natural um rapaz não saber fazer essas coisas.
Como mãe e mulher, este é um desafio que deixo às mulheres da minha Região e do meu País.
Élia Ascensão
Vereadora CM Santa Cruz



