Em tempos como os de hoje, em que se realizam cimeiras radicais, como aquela que se deu na Figueira da Foz, em que Portugal é “representado” pelo grupo Reconquista, com a presença de ilustres membros da extrema-direita europeia, dou por mim a fazer o exercício de justificar este tipo de evolução.
Hoje, a direita radical é uma corrente crescente. Sendo uma pessoa que respeita todo o espetro político, desde a esquerda à direita, e autodenominando-me como um “centrista pendular”, uma coisa que não tolero na política é este antónimo: pessoas incivilizadas sem respeito pelas opiniões terceiras.
O Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES-UC) fez uma análise que considero realista e demonstrativa dos tempos em que vivemos: a incivilidade no mais alto órgão da nossa Democracia é mais do dobro daquela que se tinha em 2019 – ano em que André Ventura se sentou no Parlamento na estreia do partido CHEGA nos grandes palcos.
A história é o alicerce necessário para responder à pergunta inicial. A ascensão da extrema-direita parece ser algo cíclico, seguindo o aparato político que se deu após as primeiras repúblicas no centro e ocidente da Europa cujo gigantesco fracasso originou a instauração de ditaduras e de regimes de censura.
Assim, creio que estes movimentos existem por um sentido de descrença no sistema, uma ideia de que o sistema não está montado para a população e, tal como nos fins da década de 20, aliado a uma crise económica. Atualmente, parece que se criaram os “fertilizantes” necessários para que tal aconteça: crise económica (não tão gravosa, mas designadamente ao nível da habitação), descrença no sistema, fluxo de emigrantes na Europa.
É assim que o partido de André Ventura cresce, aliado ainda ao culto interno de um líder – que, por muito que muitos não concordem com a forma de fazer política, ideologias ou comportamentos, saibamos reconhecer que é um verdadeiro “animal” político – tem a lição do populismo e demagogia muito bem estudada, aula que “prega” os problemas que todos veem, mas sem as soluções que poucos encontram.
Este fenómeno, contudo, não nasce isolado. Os partidos do chamado “arco do poder” têm também a sua quota-parte de responsabilidade. Quando a política tradicional se afasta do cidadão comum – seja pela linguagem distante, seja pela incapacidade de resolver problemas estruturais, abre-se um vazio que os discursos demagogos rapidamente ocupam. Não é por acaso que o crescimento destes movimentos coincide, invariavelmente, com períodos de desgaste político: o eleitorado não vota a favor de uma ideologia, mas muitas vezes contra um sistema que sente ter-lhe voltado as costas.
A isto soma-se o papel das redes sociais que privilegiam a indignação e o confronto em detrimento do debate ponderado. A incivilidade parlamentar de que fala o estudo do CES-UC não é apenas um sintoma da radicalização política, mas também um reflexo de uma cultura mediática que recompensa a intervenção mais viral, não a mais fundamentada: um deputado que insulta ou provoca gera mais cliques do que aquele que apresenta uma proposta legislativa cuidada.
Se há uma lição a retirar da história do século XX, é que as democracias não morrem apenas às mãos de golpes armados, mas também, e sobretudo, pela erosão lenta e consentida das suas regras de civilidade. Cabe-nos, pois, a todos – de bombordo a estibordo – recusar que o barco da nossa Democracia continue a adernar para os extremos e exigir que se navegue a rumo firme.
Alexandre Gomes in Tribuna da Madeira 17/07/2026



