O Povo sonha, mas não dorme!

Desde há muito tempo que a Venezuela vive uma autêntica democracia de fachada, uma situação que tem vindo a agudizar desde o final de 2016, quando Nicolas Maduro, borrado de medo de vir a perder as eleições regionais, adiou a realização das mesmas para uma data ainda incerta. Depois, esvaziou o parlamento dos seus poderes e fez a vida negra à oposição. Mais recentemente, chegou ao ponto de conseguir que o seu principal adversário político, Henrique Capriles, fosse declarado inelegível nos próximos 15 anos.

E no meio desta ebulição, não vale a pena recolher assinaturas para avançar com um referendo, visando a revogação do mandato de Maduro, pois as autoridades eleitorais acabam por barrar todos os caminhos. Enquanto isso, o Povo venezuelano luta pelo seu “Abril”, sonhando acordado com o despertar de uma democracia que tarda.

Uma crise sem fim à vista, que está a deixar a Venezuela em chamas. O país da América do Sul escolhido por milhares de madeirenses, em busca de um futuro risonho e que hoje é também pátria de gerações de descendentes lusos. Uma crise que não é só política e económica, mas também ganha contornos de crise humanitária.

Enquanto nos gabinetes do governo PSD, no Funchal, idealizam-se jantares de campanha, nas ruas de Caracas há filhos da terra que se esquivam ao gás lacrimogéneo lançado a partir de helicópteros, enquanto procuram medicamentos e bens alimentares para levar para casa.

Faltam bens de primeira necessidade mas também falta uma mensagem de apoio, um sinal, uma simples palavra daqueles que governam na terra natal. Onde é que anda o Governo Regional? O mesmo governo PSD que, não há muito tempo, andou em reuniões e conferências com empresários madeirenses radicados nas terras de Simon Bolivar, juntamente com o “credível ” BANIF, isto pouco tempo antes do banco madeirense colapsar. Será que, agora que os bolívares não sobejam, já não sabe onde fica este país?

Enquanto Albuquerque não se lembra, por exemplo, de convocar o Conselho de Diáspora Madeirense, e assim ouvir na primeira pessoa quem sente na pele o que é viver numa segunda pátria, nas ruas de Caracas há insegurança, invasão de propriedade de madeirenses e uma incomportável inflação generalizada.

Nicolas Maduro já sabe que quando ocorrerem as eleições vai perdê-las, porque já não engana o povo. Mas até lá, o dia-a-dia nas ruas de Caracas vai ser a ferro e fogo. E por cá, enquanto o governo PSD dorme, será que está a sonhar com um plano de contingência para o hipotético regresso em massa de Madeirenses?… Vamos estar por cá para agitar esses sonhos laranja, pois o Povo, esse não dorme, nem na Venezuela nem aqui, na Madeira.

RICARDO PESTANA
Assistente Técnico

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