Políticos em ‘part-time’

Nas últimas semanas, muito se tem discutido sobre as incompatibilidades no desempenho do papel de deputado. O JPP tem apelado para a necessidade de se regulamentar sobre esta lacuna em termos de regimento parlamentar. Muitas vozes se têm levantado, outros tantos esforçam-se por fazer “orelhas moucas” mas, no meu entender, a questão é tão simples quanto esta: é mesmo possível ser-se deputado em part-time? As pessoas quando votam têm realmente consciência que estão a entregar os seus destinos a pessoas empenhadas a meio-tempo, algures entre uma consulta e outra, entre um cliente e outro, entre uma ida a Tribunal e outra? Não será a função de deputado tarefa para jornadas inteiras de estudo de projetos, de visitas, de pareceres, de indagações, de contacto direto com a população? Ou será o cargo de deputado meramente figurativo, um simples passeio pela passadeira das vaidades?

Questões como estas deveriam ser debatidas, não entre deputados, mas sim em praça pública, auscultando aqueles que elegem.

Tendencialmente questiona-se pouco os deputados, endeusados em prateleiras douradas com pouca paciência para o povo. Um povo que os elegeu, que lhes confiou os seus interesses. Interesses comuns, um bem comum que não poucas vezes fica escondido e esquecido por detrás das teias de interesses.

Necessitamos de deputados a tempo inteiro, de políticos a tempo inteiro, entregues à missão que abraçaram quando aceitaram integrar uma determinada lista, quando se candidataram a um determinado cargo. Candidatar-se é uma escolha que, em primeiro lugar, é feita por quem se candidata. Ninguém é obrigado a abdicar das suas empresas bem-sucedidas, das suas funções respeitosas, dos seus escritórios luxuosos, em prol do bem comum. No entanto, quando decide entregar-se à causa política deverá fazê-lo em total liberdade de tempo, de horário, de funções, de interesses. Os cargos políticos deveriam ser de entrega total e exclusiva em verdadeiro sentido de missão e não apenas a pensar em “tachos e tachinhos”.

Acredito que para muitos o ordenado de deputado seja muito pouco, comparativamente aos rendimentos nas suas funções privadas. Para esses, de todo, não será conveniente candidatar-se a esses cargos. A escolha é de cada qual. Mas uma vez aceite, não deve ser tratada como mais um cargo, como mais um tacho, como mais uma linha no currículo, mas sim como uma missão, uma nobre missão.

Acredito em missões e acredito piamente que um dia o povo ganhará consciência da sua real importância na cadeia do poder. Talvez nesse dia, tenhamos políticos a tempo inteiro, comprometidos, empenhados naquela que deveria ser a real função de uma Assembleia Legislativa.

CÁTIA PESTANA
Arquivista

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