Nos últimos anos, temos vindo a assistir ao aumento da prevalência de casos oncológicos na Região Autónoma da Madeira (RAM) e os dados apontam para uma tendência cada vez mais crescente de novos casos/ano. Prevê-se que já em 2020 a patologia oncológica possa ser a principal causa de morte em Portugal. Considero isto, no mínimo, preocupante! Esta situação deverá ser considerada como prioritária na estratégia para a Saúde na RAM.
As medidas preventivas têm de ser reforçadas, claro! E as medidas curativas/paliativas devem ser descuradas? Será que o investimento em soluções terapêuticas inovadoras será uma estratégia prioritária perante a quase não existência de avaliação de resposta à terapêutica pelos métodos tecnológicos adequados ao actual estado da arte na RAM? O que deve ser alterado para que a taxa de sucesso possa ser ajustada aos padrões de referência nacionais e internacionais?
Para haver uma melhor noção do que se passa com os doentes oncológicos na RAM passo a enumerar alguns itens que necessitam de ser expostos e alguns respondidos, de forma cabal e sustentada em documentação oficial, para que se proceda ao melhor esclarecimento da população:
- Quem faz o registo oncológico na Região Autónoma da Madeira? Qual a sobrevida dos doentes oncológicos na RAM, a cinco anos? No continente português é de 63%. E na RAM?
- Admitindo que a esmagadora maioria dos doentes deveriam ser avaliados, tanto na vertente diagnóstica (estadiamento) como na avaliação da resposta à terapêutica instituída ao doente, por PET/CT (Positron Emission Tomography/Computer Tomography) e não apenas por TAC ou ressonância (métodos já não utilizados no continente português para avaliação funcional), quantos doentes fazem estes estudos por ano, tendo por base que deveríamos estar a realizar, no presente momento, em acordo com a Entidade Reguladora da Saúde de Portugal (ERS), cerca de 1700 estudos/ano? Estaremos a enviar, talvez, cerca de 100 doentes / ano? Quantos são enviados por ano para o continente português?
- Talvez por Portugal ser o país do Mundo (a par da Grécia, outra vez) com mais TAC por 100.000 habitantes, este seja o motivo (devido aos interesses instalados) para o não investimento desta tecnologia na RAM?
- Temos um espaço disponível junto ao Serviço Público de Medicina Nuclear da RAM. Apenas necessitaríamos de um investimento de 4 milhões de euros (que poderiam ser comparticipados em 85% pela EU) para que a tecnologia estivesse disponível para a população da RAM. Passo a explanar alguns números:
– Portugal é o terceiro país da Europa mais atrasado nesta tecnologia, isto é, com menos equipamentos nesta área – estamos a par de países como Bulgária e Roménia; Malta está muito à frente de nós (vide Eurostat);
– Os Estados Unidos da América têm 1 PET/CT por cada 200.000 habitantes (a Madeira tem 250.000 habitantes)
– No ano de 2025, deveríamos estar a realizar cerca de 2500 estudos PET/CT/ano em acordo com a ERS (num horário normal de funcionamento público apenas, poderíamos realizar cerca de 1000 estudos/ano).
– O exame no continente (para aqueles que podem viajar) custa entre 1000 -1800 euros cada estudo. Adicionados os custos inerentes à viajem aérea, com estadia e acompanhante, facilmente este valor dispara para 2500 – 3000 euros (sem contar com a lista de espera que prejudica, muitas vezes, todo o processo).
– Com o investimento anterior de 4 milhões de euros (2,2 milhões para o PET/CT, 1,5 milhões para o babyciclotrão – que produz o radiofármaco para realizar o estudo PET e que tem uma semivida física aproximadamente de 2 horas, por isso não é perfeitamente exequível a vinda do produto do continente por via aérea nem marítima -, e o restante valor seria para adequar o espaço aos novos equipamentos – visto que temos a licença mais elevada de Portugal que permite o funcionamento de terapêuticas em regime de internamento e que nunca funcionou (um aparte); por isso não precisávamos de nova licença), cada estudo custaria cerca de 200 – 300 euros na RAM (Prof. Dr. Francisco Alves, IBILI, Coimbra).
– Com a redução dos custos diretos em 10x, imaginem quanto se pouparia em custos indiretos?
– Cada vez mais os critérios dimensionais utilizados para a avaliação dos doentes oncológicos na RAM, através da TAC e ressonância, são meramente indicativos para a descrição estrutural da doença (importante, claro!); contudo, não é o método mais adequado, de todo, para o estadiamento, avaliação da resposta à terapêutica (quimioterapia, hormonoterapia, imunoterapia, etc), planeamento da radioterapia, biópsia guiadas, etc, na esmagadora maioria dos casos. A sensibilidade e especificidade deste método rondam os 100% na PET/CT contra 40% da TAC, no caso das metástases ósseas, por exemplo.
– Como a PET/CT é o único estudo que, em segurança, avalia a resposta à terapêutica, imagine-se os valores de poupança que poderiam ser alcançados por cada doente tratado? Nenhum (ou quase nenhum) tratamento é 100% eficaz! Por isso existe a 2ª linha, a 3ª linha, etc. Desta forma, tratamentos que rondam os milhares de euros por ciclo, muitas vezes não estão a fazer o seu papel porque o clínico não avalia a eficácia à terapêutica que é dada pela PET/CT. Uma lesão poderá estar mais pequena e estar mais agressiva, por exemplo.
Desta forma, reorganizar, contratar mais clínicos, sem se resolver este problema basal, a sobrevida dos doentes oncológicos aumentará para níveis razoáveis? Não!
Com tudo isto, mascarar a realidade não é a atitude mais adequada para se fazer frente aos problemas graves existentes.
Abaixo, dou-vos um exemplo de diagnóstico, avaliação de resposta ao tratamento instituído (cuja terapêutica também é uma solução da Medicina Nuclear!) num doente com carcinoma da próstata multimetastizado (as áreas pretas que aparecem na primeira imagem e que não estão presentes na segunda, referem-se à doença que foi destruída pelo nosso tratamento).

A todos, desejo um Bom Natal e um Ano Novo dentro das vossas expetativas.
RAFAEL MACEDO
Médico Especialista em Medicina Nuclear
Observação:



