O início do ano é sempre fértil em reflexões e decisões.
Neste tempo de tantas incertezas, na Madeira e no Mundo, neste tempo tão conturbado e desafiante que, mais do que nunca, colocam à prova o Humanismo, o Progresso e a Prosperidade, todos somos convocados para uma reflexão profunda, uma tomada de decisão e, sobretudo, ação.
Inspiremo-nos em Simón Bolívar. Todos nós sabemos quem foi Simón Bolívar. Todos nós conhecemos o seu papel na História e as múltiplas interpretações que as suas ações e as suas palavras tiveram e, no entanto, Símon Bolívar deixou-nos uma frase, há mais de 200 anos que hoje, mais do que nunca, mantêm a sua urgência e atualidade.
“O novo mundo deve estar constituído por nações livres e independentes, unidas entre si por um corpo de leis em comum que regulem seus relacionamentos externos” (Simón Bolívar – Wikipédia, a enciclopédia livre).
É um princípio básico, simples. A legalidade. O respeito pelo Outro. A resposta efetiva e transparente aos problemas dos cidadãos A aplicar também nos desafios que nos são mais próximos.
No Porto Santo.
No Porto Santo e no inenarrável isolamento em que teimam em manter a Ilha, por força da ausência do barco e da supressão das ligações aéreas; ou na paulatina destruição do património biológico; ou na falta de manutenção das infraestruturas públicas; ou na prioridade dada ao golfe sobre a Nova Unidade Local de Saúde.
Na Madeira.
Na revogação da obra de construção de um Lar, ao abrigo do PRR, em Santa Cruz. 78 camas que se esfumaram.
Na República.
Na prenda que o ainda Presidente da República Portuguesa nos deixou: o Subsídio de Mobilidade (como se o Decreto ontem promulgado pelo Presidente da República, com as suas regras obtusas, resolvesse alguma coisa).
É uma reflexão que se impõe.
Mas julgo que os Porto-Santenses e os Madeirenses não perdoariam – eu próprio não me perdoaria – se esta reflexão não contemplasse aqueles de nós que vivem de coração apertado, àquele país irmão, àquela terra que muitos consideram sua e têm como mãe e sofre – a Venezuela.
A Pátria prometida da abundância e da Liberdade, mas que vive refém da ditadura e da loucura! A Pátria do acolhimento e da prosperidade! Uma Pátria rica, riquíssima, transformada num joguete de interesses obscuros. Uma Pátria onde os cidadãos vivem reféns na sombra da Ditadura e da Loucura!
Dois mil e vinte e seis anos de História – para falar apenas da nossa Era – e não aprendemos a viver em paz? Porque é que o século XXI, não é – como todos desejavam que fosse – o século da Ciência e da Cultura? Da Convivialidade e da partilha? Do Respeito Mútuo? Porque é que os discursos e os recursos estão a ser consumidos no armamento, no domínio, na lei do mais forte sobre o mais fraco, ao arrepio das mais elementares regras de direito internacional?
Será que desejamos demasiado? Será que sonhamos demasiado alto?
Temos que olhar para a História e aprender o que ela nos ensina, olhar os Acontecimentos e os Homens que, tendo vivido tempos conturbados, tiveram a visão e o arrojo de construir uma sociedade melhor, com valores que ainda hoje, apesar de várias interpretações enviesadas, se mantêm atuais e pertinentes:
– o respeito pela autodeterminação e autonomia dos Povos;
– o respeito pelas instituições, pela Democracia, pela Paz.
Este é o pensamento que nos devia inspirar, nos dias de hoje, mas que desafortunadamente a realidade se revela bem longe dessa prática, como sucede na Venezuela, e com os nossos concidadãos venezuelanos.
Afinal o que queremos para nós e para os nossos filhos?
O que quer o Povo Venezuelano?
Arrisco-me a dizer que o Povo venezuelano quer o que querem todos os Povos, todas as pessoas de boa vontade: Igualdade, Liberdade e Fraternidade.
Permitam-me ilustrar com um caso concreto de uma jovem que chegou recentemente ao Porto Santo: a Rosalina.
O que quer a Rosalina que teve de sair da Venezuela e integrar uma turma, numa Escola, numa Ilha que só conhecia de ouvir os pais falar, numa língua diferente? O que quer o irmão da Rosalina que se viu forçado a abandonar os amigos e os jogos de basebal no Centro Cultural aos sábados à tarde? O que querem os pais da Rosalina que se viram forçados a abandonar todo o trabalho, toda a formação, todo o esforço de uma vida; abandonar tudo por temerem pela sua vida e dos seus filhos?
Arrisco-me a dizer que apenas querem uma oportunidade. Uma oportunidade para serem felizes na terra que os viu nascer, ou que os acolheu. Uma oportunidade para estudar e para trabalhar; quem sabe gerar riqueza, ou criar cultura, ou desenvolver a ciência, ao arrepio das tentações ditatoriais, ou dos tiques de cobiça do vizinho.
Afinal, como dizia, hoje, Ítalo Atencio, da Associação Nacional de Supermercados, da Venezuela, num periódico da nossa Região “O que sabemos fazer é trabalhar.” Julgo que não estou a faltar à verdade quando digo que é apenas isso que o povo venezuelano quer. Apenas viver em Liberdade. Viver em Democracia. Viver em Paz.
No rescaldo da Noite de Reis, onde grupos armados de acordeões e de violas, se espalharam um pouco por toda a ilha da Madeira e do Porto Santo, entoando cânticos de alegria e partilhando mesas fartas, uma parte significativa da nossa comunidade vive de coração apertado, de coração cheio de angústia, de incertidumbre, sobre o seu Futuro e o Futuro dos seus.
Por isso, queria manifestar a solidariedade, endereçar um abraço solidário a todos os venezuelanos que sonham um Futuro melhor.
E desejar, para 2026, que a Estrela da Paz que conduziu os três Reis ao berço daquela manjedoura ilumine os homens de boa vontade e instale neles um desejo sério de trocar os discursos do ódio e da opressão pela Paz e pela Sabedoria.
Que 2026 represente a concretização dos sonhos dos nossos irmãos venezuelanos e possamos, num Futuro próximo, celebrar, juntos, com alegria plena a paz e a Liberdade!
Que em 2026, ecoem novamente as palavras de um dos pais fundadores da América, George Washington, que, em tempos, proclamou: “Observar a boa fé e a justiça em relação a todas as nações; cultivar paz e harmonia com todos.”, a bem dos Povos e das Comunidades.
Obrigado!
Carlos Silva
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