O “bom” Regresso

É quase sempre assim. Todos os anos, o final de agosto rima com predisposto. Em todas as áreas, existe uma predisposição para regressar às lides profissionais. Invariavelmente, costumamos ouvir com frequência que chegamos de férias mais cansados do que quando fomos. E não é descabido tais afirmações. O “dolce fare niente” leva-nos para um certo relaxamento, aquilo a que muitos chamam procrastinação. Se o corpo precisa regenerar energias para os próximos desafios, é verdade que o cérebro não para. São pensamentos agregados ao passado que instruem a nossa massa cinzenta a trabalhar no presente estival as melhores estratégias para pôr em prática no futuro próximo, isto é, no regresso ao trabalho.

            No caso dos Professores, por muito que se queira proporcionar um certo alheamento, não se pode dissociar o lazer do compromisso. Se bem que não existem horários para cumprir (será esta a única vantagem em se estar de férias), há sempre um artigo, um livro, um vídeo ou podcast que faz soar as “Campainhas”. E, de repente, nos damos conta a ir numa correria comprar este ou aquele livro porque nos pareceu interessante para pôr em prática nas nossas aulas. Ou a guardar no disco externo aquele artigo que aborda novas estratégias no processo ensino/aprendizagem. Ou então visualizar vezes sem fim o podcast daquele autor que faz uma reflexão pertinente sobre o ato de ensinar.

            A internet e, por consequência, as redes sociais posicionam-se num patamar que obriga a constantes “reciclagens profissionais”, pois todos os dias somos invadidos por sugestões vindas de toda a parte, inclusive do outro lado do Mundo. Experiências que resultaram lá e que queremos tentar a ver se resultam por cá. Daí que o termo “férias” significa estar em família, mas sem nos desligarmos daquilo que somos.

            O regresso à escola está aí, ao virar da esquina. A azáfama da compra do material escolar há muito que começou. Crianças em êxtase com a perspetiva de ter aquela mochila que tanto sonhara, com o estojo a condizer. Na expectativa de reencontrar os colegas de escola e voltar a pisar os corredores que farão parte do seu quotidiano nos próximos 9/10 meses. Famílias inteiras reorganizam-se. Há que planificar horários, reajustar percursos, inventar estratégias de motivação para sair de casa a cada manhã. Mas há um exercício que deverá ser feito para fomentar o equilíbrio emocional: Saber dizer “Não” ao filho/filha. Na perspetiva do Psicólogo Alfredo Leite

“Uma criança precisa de limites para se sentir segura. Mas também mostra que quando os “nãos” são excessivos ou mal colocados não constroem segurança… constroem medo, distância e desmotivação”.

O que a Escola precisa é de Professores dedicados e alunos motivados, protegidos por uma Família comprometida com o progresso e sucesso dos seus filhos. Todos estamos envolvidos num único propósito que passa por criarmos todas as condições para que as nossas crianças/jovens se sintam bem, confortáveis e possam fazer da Escola um espaço de conhecimento e de reforço da sua própria Identidade Pessoal, Social, Cultural. Até porque o Psicólogo Alfredo Leite afirma que

“…educar é ensinar que a Vida tem fronteiras, mas que dentro delas há um campo imenso para explorar”.

            A Pedagogia do “Não” é muito mais abrangente do que se pensa. Ela não se confina apenas à Família. As crianças/jovens devem ser trabalhadas para aceitar um “Não” nos mais variados contextos, porque serão sempre os obstáculos a melhor ferramenta para avançar com firmeza. Reagir à adversidade é construir uma proteção emocional assente na resiliência e na capacidade de superação. O importante é fazer a criança sentir que o “Não” é uma aprendizagem e não uma castração. Porque o “Não” bem colocado é como um cinto de segurança: limita, mas protege (Alfredo Leite).

            No fundo, o que se quer é que este seja um “bom” regresso. Que as portas das Escolas se abram de par em par… que os profissionais que lá “habitam” acolham de braços abertos… que os pais sintam a confiança de deixar os seus filhos… que os alunos percebam que aquele espaço será, doravante, a sua segunda casa.

José Carlos Mota

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