A maré está cheia…

«A maré está cheia, o barco não anda, eu queria passar ai, ai, para aquela banda…». São versos de uma canção conhecida do folclore madeirense, que relevam a importância das ligações marítimas para um território insular como o nosso. Durante séculos a “estrada marítima” manteve-nos ligados ao mundo, trazendo, entre outros, os que vinham gozar os bons ares da Madeira, embrião daquela que é atualmente a maior indústria da economia regional, o turismo.

Por outro lado, os navios que aportavam no Funchal levavam os madeirenses que procuravam melhor fortuna noutras paragens. África do Sul, Venezuela, Brasil, Angola, Moçambique, etc., destinos de muitos madeirenses, que viram naquela longa estrada líquida, a forma de escapar a um destino de pobreza e servidão. A diáspora madeirense, um tema com muitas histórias por contar.
Atualmente, o madeirense tem no transporte aéreo o serviço de eleição para sair da ilha, seja em gozo de férias, trabalho ou infelizmente para procurar um futuro melhor noutras paragens. A História, infelizmente, repete-se…

Pelos caminhos de quatro décadas de Autonomia perdeu-se o transporte marítimo (…o barco não anda), melhor dizendo, tratou-se de expulsá-lo. Todos os madeirenses conhecem bem a história do operador canário Naviera Armas que, durante três anos, ligou a Madeira a Portimão, com recurso a modernos navios ferry. Levou madeirenses ao continente, continentais à Madeira e, muito importante, a preços atrativos trouxe mercadorias que de outro modo tinham de fazer o penoso percurso dos navios porta-contentores.

Como tempo é dinheiro, o madeirense teve, durante o tempo que decorreu a operação ferry, acesso a produtos frescos a preços mais acessíveis e com melhor qualidade. Os produtores madeirenses também tiveram a oportunidade de colocar os seus produtos no mercado continental, escoando com facilidade as suas produções. Por razões várias, já exaustivamente debatidas, a operação ferry terminou e os madeirenses viram-se privados desta alternativa de transporte.

O assunto não se encerrou com a saída do operador. Tema politicamente sensível foi alimentado pelas diversas forças políticas regionais que eram unânimes na reposição da ligação. Um dos mais veementes defensores era Miguel Albuquerque, atual presidente do governo regional, que em campanha para a liderança partidária e para as eleições regionais, afirmou alto e bom som que a ligação marítima Funchal-Portimão era uma prioridade.

As prioridades entretanto passaram para as chamadas “calendas gregas”, melhor dizendo, para o dia de “são nunca à tarde”. É caso para questionar, quem sequestrou a vontade de Miguel Albuquerque?

JOÃO CARLOS FREITAS
Empresário

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