No passado dia 9 de novembro de 2016 todos nós acordámos com a notícia (chocante, no meu caso) da recente eleição de Donald Trump para a presidência de uma das maiores economias mundiais – os Estados Unidos da América.
E se, por um lado, todas as sondagens e estudos de opinião apontavam para um crescimento dessa tendência, a verdade é que a incredulidade sobre o “ato consumado” foi geral.
O certo é que estes resultados vêm no seguimento do abalo europeu provocado pela decisão de saída do Reino Unido. Em ambas as situações, tanto as análises, como as pesquisas políticas, e as próprias expetativas dos mercados internacionais foram duramente contrariadas pela expressão soberana de uma vontade popular, deixando incrédulos atores políticos e económicos e grande parte da opinião pública.
Uma lição dura e amarga para todos os que menosprezaram o candidato magnata, sem experiência política, que representava para muitos um salto no desconhecido. Mas apesar de todas as opiniões sobre a perplexidade do resultado, esta é, acima de tudo, uma lição de democracia de duas das mais duradouras democracias representativas.
Apesar de ser particularmente difícil, a análise das crescentes disputas políticas, vêm, de certa forma, dar a entender o voto em Trump. Com um argumento profundamente nacionalista, xenófobo, homofóbico e sexista, com um estilo contundente, demagógico e com uma clara tendência para laivos de cólera, ira, intolerância e bullying (aberrações dantescas às atitudes, normas de comportamento e valores que nos são incutidos, desde cedo, quer no seio familiar quer ao nível escolar), Trump representa um corte radical para o atual “establishment” norte-americano e vem unificar os valores republicanos, há muito mergulhado numa profunda crise ideológica, e que, há anos, vem assumindo uma retórica crescentemente radicalizada que seduzem parte de uma população que se sente excluída pelo processo de globalização. E se, por um lado, Obama soube compreender a necessidade de mudanças sociais que teriam de ser assumidas em contexto de crise económica global e a uma nova realidade socioeconómica, por outro, Trump vem virar a consciência americana, vem dar voz à revolta de uma classe média em declínio, mas também vem reescrever o “american dream”, ressuscitando o self made man como o típico herói americano.
É uma ilusão criar um otimismo de que Trump mude o seu discurso de uma forma radical e espontânea, e que possa, subitamente, ser iluminado pela clarividência e sabedoria necessária a um presidente de uma potência mundial. E é claro que o 45º Presidente não é um outsider da ordem estabelecida nos Estados Unidos. É claro que Trump sempre pertenceu à classe de elite que comanda a economia americana. Mas resta entender (e entenderemos futuramente) até que ponto todas as aberrações de campanha não foram um mero artifício para ganhar as eleições. E até que ponto a pressão de estar no cargo político mais importante de um dos países mais poderosos do mundo não irão dissipar as promessas e as ameaças mais aberrantes numa etérea demagogia eleitoralista.
Tanto o Brexit quanto a vitória de Trump são sinais de alerta a nível mundial. Num contexto globalizado, onde a desigualdade social e a insegurança da população seguem a ritmos escandalosos e a níveis muito superiores ao ritmo da própria economia, é necessária uma posição política responsável e a apresentação de uma postura credível, ao invés de meros atos teatrais de maneio dos vícios políticos da demagogia e do populismo. É necessário evitar a descrença no sistema político e evitar o mimetismo da indiferença verificada em grande parte da população americana, mesmo perante a retórica radical e desequilibrada de Donald Trump.
Seguem-se diversos atos eleitorais decisivos para o equilíbrio europeu e para a ordem internacional e é necessário desconsiderar o exemplo dado pela campanha eleitoral norte americana – uma eleição não é um “reality show”, e esta mancha nunca mais será apagada da história democrática norte-americana.
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