A mente humana tem a capacidade de nos orientar, seja para o bem ou para o mal. Faz-nos julgar que sabemos de tudo, sobre todos os assuntos e onde a nossa razão assume-se como uma qualquer Lei Insofismável que regula o Universo. Daí que, quando dei uso ao teclado para dissertar sobre todas as coisas e coisas nenhumas, apoie-me em Aristóteles quando afirmou que “o ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. E se as nossas afirmações carecem de verificação e, na dúvida do que está ou não certo, o melhor é mesmo sermos sensatos ao ponto de podermos refletir em conjunto.
E a melhor reflexão que podemos aplicar vai ao encontro da nossa opinião pessoal acerca de assuntos que são do interesse comum, sobretudo em procurar descodificar os sinais que povoam a opinião pública. Porque, tal como nos diz Lao-Tsé “quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão”. E é preciso que não nos iludamos com tudo o que se ouve na praça pública ao velho estilo do faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço.
E o que vos trago para reflexão são três eixos essenciais que balizam os nossos dias enquanto agentes ativos duma sociedade que se quer igualitária, equitativa e próspera. E como os três eixos são transversais ao todo nacional e a sua importância estratégica é colocada no mesmo prato da balança, começo pela Educação.
A Educação, desde tempos imemoriais, tem trilhado o seu caminho lado a lado com as várias construções sociais. Quem se lembra das teorias tradicionais do currículo e sobretudo, o currículo social de Dewey em contraponto ao ensino tradicional? Dewey defendia uma aprendizagem suportada pelas experiências sociais significativas. Ou seja, a Escola saía das 4 paredes para se aventurar em experiências significativas onde o contexto serve de “palco” para interações sociais. Por outro lado, quantas vezes já ouvimos dizer “o Educador/Professor é a base de tudo porque sem a escola as outras profissões não existiriam”? É através da Educação que consolidamos a nossa Identidade entretanto adquirida no contexto familiar. É na Escola que moldamos a nossa atitude crítica, é na Escola que aprendemos a Cidadania. Mas nos tempos atuais sopram ventos de mudança e desconfiança. A Escola deixou de ser espaço de aprendizagem para passar a ser empresa tecnocrata, recheada de burocracia onde o objetivo final não está centrado na criança, mas sim na logística dos rácios e números enfeitados. A Escola “desumanizou-se” e a classe docente envelhece, envelhece, envelhece… porque os jovens fogem da docência como o diabo foge da cruz… Os novos não vislumbram futuro e os menos jovens vão “segurando as pontas”, fazendo das tripas coração para corporizar e operacionalizar tudo aquilo que os fez escolher essa profissão há 20, 30, 40 anos. E o Governo o que faz? NADA! Pura e simplesmente desmarca-se das suas responsabilidades e caminha em sentido oposto, alargando ainda mais o fosso entre a teoria governativa e a prática educativa. No meio ficam os alunos, “órfãos” e entregues à sua sorte, sem modelos e sem guia que os oriente. Bertolt Brecht diz-nos que “o que não sabe é um ignorante, mas o que sabe e não diz nada é um criminoso”. O Governo Regional sabe muito bem da realidade nas nossas escolas, sabe muito bem da desmotivação dos professores, sabe muito bem dos sacrifícios das famílias e nada faz… logo, é criminoso!
O segundo eixo que vos quero falar é sobre a Saúde. A saúde e o bem-estar são elementos essenciais para que um país prospere. Uma população ativa, saudável e dinâmica potencializa mais-valias, promove experiências sociais através dos convívios e incentiva o espírito solidário. Proporcionar cuidados de saúde de excelência é acautelar o futuro duma sociedade. A população necessita de confiança, de se sentir segura na sua prática laboral para que, no caso de recorrer a uma unidade de saúde, ter a certeza de receber um atendimento digno, humano, eficaz. E se os nossos profissionais de saúde dedicam muito de si para acudir a todas as solicitações, também é verdade que se sentem impotentes ao verificarem falta de recursos. E a desmotivação cresce, a falta de futuro profissional aumenta e a insatisfação face à inércia do Governo Regional ganha contornos assustadores. No fundo, com a saúde não se brinca e o Governo Regional teima em fazer da saúde madeirense um brinquedo. Porque, como nos diz Artur Schopenhauer “o maior erro que um homem pode cometer é sacrificar a sua saúde a qualquer outra vantagem.” E, infelizmente, o nosso Governo Regional continua a sacrificar a nossa saúde para garantir vantagem aos seus amigos.
O terceiro eixo tem a ver com a Habitação. Vivem-se momentos de enorme especulação imobiliária alavancada pela crescente procura estrangeira na Região. O Governo Regional há muito que deixou de governar para os seus, preferindo tornar-se Mediador Imobiliário Premium. Cada vez mais assistimos a apelos desesperados de famílias que não só conseguem adquirir habitação como até o próprio arrendamento está a preços proibitivos. E que dizer dos jovens? Num passado não muito distante, a palavra de ordem era “Emancipação”. Os jovens terminavam o seu percurso escolar e, na hora de se aventurarem no mercado laboral, o primeiro passo era sair de casa, ganhar “asas” e voar para o seu ninho e depois, quiçá, casar e constituir família. Ganhavam os pais, ganhavam os jovens e ganhava o país que assim mantinha uma taxa de população jovem alicerçada pela taxa de nascimentos maior do que os óbitos. E o que se sucede agora? Fruto das políticas desastrosas dum Governo à deriva, temos jovens com estudos superiores sem emprego (muitos deles a emigrar), sem disponibilidade financeira para sair debaixo da saia da mãe e sem perspetivas claras para formar família e contribuir para a inversão da atual pirâmide invertida da nossa sociedade. Escusado será dizer que sem condições dignas de habitabilidade, não há progresso que o valha.
E estes três eixos completam-se entre si numa teia que tei(m)a em resistir. Não pode haver Educação de qualidade senão incentivarmos os jovens a seguir a docência, garantindo continuidade nas boas práticas educativas. Mas para isso é necessário “seduzir” os jovens com salários atrativos, com acesso a cuidados de saúde eficazes e com uma oferta do parque habitacional adequado ao seu poder de compra. Não pode haver excelência na saúde se não oferecermos melhores condições de trabalho a todos os que operam na área (médicos, enfermeiros, técnicos, assistentes…) e se não rentabilizarmos os nossos jovens formados na Região, oferecendo-lhes garantias de futuro profissional. Por fim, a habitação não pode ser um entrave ao sucesso. As crianças aprendem melhor se tiverem um lar adequado ao seu desenvolvimento. Os jovens progridem se lhes forem dadas condições de privacidade. E tudo no seu tempo.
Deixo para o final um assunto que me inquieta bastante. A Mobilidade e o Princípio da continuidade territorial. Houve um tempo em que as “guerrilhas” institucionais entre os Governos (Regional e Nacional) despoletava o sentimento do Povo Superior, mas com Direitos Inferiores. E esse assunto volta agora à baila com a polémica plataforma do subsídio de mobilidade. Afinal, somos ou não somos todos portugueses independentemente da Região onde habitamos? Somos ou não somos portugueses na hora de honrarmos os nossos compromissos fiscais para com o Estado? Jamais deveria haver rótulos entre os nossos, porque não se trata de etiquetar, nem colocar código de barras como se os cidadãos fossem um produto de supermercado. De norte a sul, da Madeira aos Açores, todos têm deveres e direitos. E só ignora quem é estúpido na sua análise. E o deputado do PSD na Assembleia da República, Hugo Soares, conseguiu uma façanha: Estupidificou a sua ignorância!
José Carlos Mota
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