Aproximam-se as eleições autárquicas de 1 de outubro de 2017. E sente-se já muita agitação (para o bem e para o mal).
Sempre tive um especial carinho pelas eleições autárquicas, porque são as eleições que mais aproximam os políticos do genuíno povo, do povo autêntico, é sempre uma campanha de terreno, de porta-a-porta, onde se encontra diretamente a população, onde se contacta com os problemas reais de um país ou região real (e tantas vezes profunda), onde se cruzam olhares e sonhos com novos e velhos, ricos e pobres.
Estas são as eleições mais genuínas (entenda-se, mais legítimas). Os eleitores votam mais nas pessoas (que conhecem melhor, que revelam idoneidade, que vislumbram cumprir promessas) e em projetos (em que acreditam, em que se identificam e que beneficiem as populações locais em detrimento de facilitismos e interesses pessoais), e só lá no fundo, bem fundo, a fugir de vista é que votam num partido…
As eleições autárquicas aproximam o político (que se apresenta como candidato a governante de uma câmara, de uma junta de freguesia) da população / do eleitorado.
Nas eleições autárquicas percebe-se as reais necessidades de uma população, de uma coletividade, que partilha, para além dos seus problemas individuais, os problemas de um espaço geográfico e territorial com especificidades próprias: os da sua freguesia, os do seu concelho … Ninguém melhor que a população para indicar aos políticos as reais situações do concelho. É no exercício do viver e ouvir que um político ausculta a população para depois pode decidir.
Mas a população merece conhecer, e bem, não só o candidato a presidente de câmara ou de junta de freguesia, mas também a sua equipa. É natural que numa equipa haja um elemento menos conhecido da população que é escolhido pelos seus conhecimentos técnicos, pela sua experiência, pelas suas competências, porque como sabemos há muito trabalho de bastidores que são operações executadas por técnicos… e há sempre, e ainda bem, gente nova (não necessariamente pela idade, mas pela experiência) que vai surgindo em prol da logística governativa.
Temos de entender que se uma câmara municipal é, por vezes, de uma dimensão complexa, as juntas de freguesias vêm colmatar a existência de alguma distância das populações. É da responsabilidade das juntas de freguesias essa proximidade.
A junta de freguesia é um espaço nobre. Os verdadeiros candidatos a autarcas (dispenso os pretensiosos) devem ser: ou naturais da freguesia (onde está a sua identidade, a sua vivência, onde ainda estão algumas familiares, por onde passa regularmente e participa das vivências); ou habitante da freguesia (vivendo e conhecendo a realidade local).
É demasiado pretensioso e irresponsável apresentar-se como candidato a uma junta de freguesia sem conhecer as realidades dessa localidade. É preciso apresentar projetos e atividades concretas, distribuir funções aos elementos da sua equipa, dirigir e coordenar reuniões, dar cumprimento a deliberações, tomar decisões, responder a pedidos de ordem diversa da sua população, apoiar as populações, autorizar despesas (e prestar contas ao Tribunal de Contas e às entidades competentes, e à população, claro). Isto se tudo correr bem, e nas situações de catástrofes e calamidade? Nestas situações o presidente de uma junta de freguesia tem de tratar todos por “tu”, ou seja, conhecer todos, para que não deixe ninguém para trás: é a Sr.ª. Maria que vive sozinha, é o Sr. António que está acamado, são gente com nome. As pessoas de uma junta de freguesia não são coisas, são pessoas.
O presidente de uma junta de freguesia representa a população dessa freguesia. Um candidato a presidente de uma junta de freguesia tem de estar consciente desta função (ou não se candidate).
Um candidato a presidente de uma junta de freguesia tem de conhecer a realidade dessa freguesia.
Não acredito num senhor ou numa senhora que sem conhecer profundamente a realidade de uma localidade comece a prometer o que não sabe (porque é desconhecedor). Não se pode fazer um programa para a junta de freguesia “A” igual ao da freguesia “B”, porque são realidades diferentes, pode, isso, sim, haver uma base comum, mas nunca igual (de banalidades e falsas promessas políticas o povo está cheio, e farto).
Incrivelmente há pessoas disponíveis para tudo. Para serem presidentes das juntas “A”, “B” ou “C” (não interessa onde são, querem ir na mesma, o que interessa é ser cabeça de lista e ser eleito …).
E agora porque estou mais diretamente envolvido na política, não ficarei calado a promiscuidades, a ânsias do poder, a oportunistas e oportunismos.
Estou na Madeira por opção pessoal. Aqui estou há dezassete anos nesta terra que me recebeu e acarinhou. Não sou natural da Madeira, sou madeirense por afeto, e aqui tenho família e muitos amigos, muitos mesmo. Fui ao longo destes anos conhecendo a Madeira e Porto Santo. Foi conhecendo um pouco da sua história, da sua cultura, dos seus costumes (e há tanta coisa ainda para conhecer), e fui tomando consciência da sua realidade político-partidária.
Mas nunca imaginei que para determinadas pessoas desta ilha o poder autárquico fosse tão importante e apetecível. Fosse entendido como um trampolim para qualquer coisa (mas essa “qualquer coisa” pode ser perigosa.). Entendo que o poder autárquico é o poder mais importante, não porque seja uma passagem para atingir proveitos pessoais, mas porque exige muita responsabilidade política (digo política e não só partidária), onde a proximidade e a vivência são importantíssimas.
Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa: uma coisa é ser candidato a presidente de uma junta de freguesia, e outra coisa é integrar uma equipa onde exercerá serviço técnico da sua área de competências…
ORLANDO FERNANDES
Gestor Financeiro30



