Dois anos de Saúde (ou da falta dela)

“É um erro jornalístico estar sempre a falar sobre o mesmo assunto”. Foi esta a forma que Pedro Ramos, o terceiro Secretário Regional da Saúde deste Governo, encontrou para justificar a falta de medicamentos para doentes oncológicos e a escassez de vacinas e medicamentos que, atualmente, afligem milhares de madeirenses e porto-santenses.

Estas declarações, ironicamente referidas durante a cerimónia comemorativa do Dia Mundial da Saúde, vêm relembrar a história do folclore japonês que faz referência a três macacos sábios, mizaru (o que cobre os olhos), kikazaru (o que tapa os ouvidos) e iwazaru (o que tapa a boca).

Perante tantas denúncias, tantos alertas e tantos casos de autêntico desespero que nos chegam todos os dias, resta colocar uma interrogação: quantas pessoas terão de sofrer com a privação de medicamentos para que se tome uma posição séria em relação à saúde?

Foi noticiado há poucos dias, um caso de um paciente que foi diagnosticado com acidose metabólica (uma acidez excessiva do sangue e fluidos corporais) que requer, no mínimo, uma pronta intervenção. Considerando a gravidade do problema, foi ponderada a utilização de bicarbonato de sódio na terapia. O fármaco não estava disponível na farmácia hospitalar. O paciente acabou por morrer.

Neste caso, a Secretaria Regional da Saúde veio, prontamente, negar a situação, mas o certo é que diversos profissionais de saúde, que incluem diversos médicos que acompanharam o caso, não têm dúvidas em afirmar que a morte foi consequência da falta de administração do fármaco na altura do diagnóstico.

E nesta perspetiva colocam-se outras tantas questões: quantas situações graves poderiam ter sido evitadas se os pacientes não tivessem sido obrigados a interromper as suas terapias, por falta de planeamento público para as aquisições ou por dívidas a fornecedores?

Como é possível que se diga a um paciente madeirense que determinados medicamentos estão apenas disponíveis nas farmácias do continente português, mas que os doentes na Madeira e no Porto Santo não têm acesso aos mesmos? Como é que podemos admitir que existam pessoas, atualmente, a viajar para Lisboa somente para adquirir medicação?

Como é que se pode justificar décadas de despesismo do dinheiro público, quando existem doentes, muitos deles com doenças terminais, que estão aprisionados a uma cama e que necessitam urgentemente de um medicamento para lhes aliviar o sofrimento das doenças de que padecem. Como é que podemos negar-lhes isto, por meras burocracias e por mera politiquice?

Como é admissível que diversas pessoas seropositivas se desloquem à farmácia do hospital e sejam informadas da existência de rutura de stock, sendo, em alguns casos, disponibilizada medicação avulso para períodos de apenas três dias. Quem assumirá a responsabilidade pelos doentes que se viram obrigados a parar a toma da medicação para a infeção pelo VIH, por viverem longe do hospital e não terem possibilidades económicas para se deslocarem, a cada três dias, à farmácia hospitalar. Principalmente, quando a própria legislação obriga à dispensa da medicação para períodos de 90 dias.

Até quando terão de esperar os doentes com cancro, que desde meados de março, se encontram vedados de medicamentos antineoplásicos necessários para tratamentos associados à quimioterapia?
Há poucos dias, o Governo Regional aludia a uma ascensão da nova ignorância, referindo-se a todos aqueles que “têm apenas o objetivo de denegrir o serviço regional de saúde da RAM”. Pois tal como os três macacos sábios do provérbio nipónico, os decisores políticos deste Governo continuam avessos à crítica e à opinião, hostis a responder e a esclarecer, indignando-se por tudo mas respondendo a pouco.

Em defesa de todos aqueles que têm denunciado e alertado, e de todos aqueles que, infelizmente, já não o podem fazer, envio uma palavra de respeito e de incentivo, para que continuem a dar vida à mais nobre forma de democracia participativa, em prol de uma das nossas maiores riquezas, do direito fundamental à proteção da saúde, consagrado constitucionalmente.

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