Um recente inquérito levado a cabo no Centro Hospitalar de S. João, no Porto, teve como resultado mais evidente que um em doze profissionais de saúde diz ser vítima de Bullying, sendo sobretudo “enfermeiras e administrativas as vítimas de humilhações e comportamentos hostis no trabalho” e “os agressores predominantemente os seus chefes”. Ao traçar um paralelo com a realidade madeirense, os valores devem ser igualmente desoladores. Basta ver o número de trabalhadores em funções públicas que na Madeira, recorrerem às consultas de apoio psicológico.
O certo é que quem gere as instituições não se mostra desperto para essa realidade e esquece que há gente dentro dos serviços públicos. Se formos a ver, as reformas operadas nos últimos anos tiveram como único objetivo a redução da despesa. Quanto ao resto, está tudo congelado. É a inexistência de formação, as aposentações que não são colmadas com novas entradas, o recurso ao vínculo precário, a ausência de aumentos e proliferação do salário mínimo, o sistema de avaliação pouco objectivo, inaplicável e ineficaz, a desburocratização, as condições de trabalho, entre outras queixas.
Na administração pública regional, há profissionais que aguardam pelo descongelamento das carreiras e a realização de concursos internos que possibilitem a sua integração em novas carreiras. Foram vítimas da extinção da figura da “reclassificação”. Lembro que foi feito um levantamento pela Secretaria Regional da Finanças e da Administração Pública para solucionar a situação, sendo que muitos aguardam há dez anos pelo reconhecimento das suas habilitações, alcançadas, muitas delas, ao abrigo do estatuto de trabalhador-estudante, aceite e aprovado por serviços que dispensaram os seus funcionários de horas de trabalho efectivo, mas que não reconheceram, em termos de carreira, esse investimento. É preciso não esquecer que é necessário capacitar tanto quem define as políticas públicas, como os profissionais que as executam.
São situações que levam a que a função pública enfrente uma desmotivação e desmoralização dos seus profissionais. Quem tem o dever de liderar uma equipa, tanto deve saber encaminha-la para os objetivos, como também deve ter a sapiência necessária para a proteger, quando esta mais precisa, ainda mais no meio de tantas incertezas e de uma instabilidade que persiste.
É importante que, em ano de eleições, quem está à frente dos destinos da região não esqueça que também os governantes são trabalhadores com vínculo precário e que, neste caso, a entidade patronal somos nós. Os que votam.
RICARDO PESTANA
Assistente Técnico



