Santa Cruz voltou a cumprir a tradição da Festa de Santo Amaro.
Mais do que o primeiro arraial do ano na Região Autónoma da Madeira, esta festividade assume-se como uma manifestação cultural, que abarca várias gerações e sensibilidades.
Como organizadores deste evento, tem sido nossa preocupação este caráter inclusivo, não só em termos geracionais, mas também de promoção de uma manifestação cultural que abarque o que de mais genuíno tem a cultura popular, sem, no entanto, deixar de lado as manifestações mais eruditas dessa mesma cultura.
Entendo que todo o serviço público deve ter por base estas variáveis, pois só assim podemos ter a garantia não só de servir a população no seu todo, mas também de cumprir o nosso papel na promoção da tradição e no incremento de novas abordagens culturais e, consequentemente, garantir o crescimento cultural de um povo.
Neste sentido, destaco a circunstância da Festa de Santo Amaro ser um momento paradigmático em que todos estes objetivos e premissas se conjugam.
Recordo, a título de exemplo, a integração das escolas na tradição do Varrer dos Armários, o que permite um leque geracional alargado que adere a estas festividades. O próprio arraial é também dividido em duas manifestações diferentes: uma mais tradicional e outra mais ao gosto de várias gerações.
Na manutenção dos nossos usos, costumes, tradições e marcas culturais a Feira Etnográfica cumpre essa função de agregar uma pequena mostra do nosso artesanato, música e gastronomia. Uma montra daquelas que são as nossas marcas identitárias mais antigas, mas onde fazemos também questão de inovar, nomeadamente através do convite feito às unidades hoteleiras, cujas cozinhas reinventam criativamente os nossos pratos tradicionais.
A programação do arraial é aquela que tenta alcançar um público o mais heterogéneo possível, com uma oferta variada e com os elementos que são próprios destas manifestações populares.
Para uma maior abrangência, fizemos questão de envolver a Casa da Cultura de Santa Cruz em toda esta dinâmica, não só através do vínculo com as escolas, mas também trazendo a toda esta envolvência popular manifestações mais eruditas, como foi o caso da inauguração da exposição do artista Paulo Sérgio BEJu.
Se aqui falo da Festa de Santo Amaro é porque ela é, realmente, o espelho da nossa estratégia cultural e também do nosso profundo sentir sobre a necessidade de uma cultura inclusiva, que não esmoreça no passado, que o valorize, mas sem, contudo, deixar de dar o passo em frente, cultivando o gosto pela tradição, mas também pela modernidade e por todas as formas de manifestação cultural, artística e estética.
Em termos culturais, queremos continuar a apostar nesta dinâmica capaz de envolver todas as gerações e todas as valências culturais, tendo sempre em vista um plano de desenvolvimento que não abandone o que de genuíno temos, mas que seja suficientemente aberto no sentido de uma evolução que se quer salutar e capaz de congregar diferentes sensibilidades e gostos.
*Artigo de opinião publicado no JM / 17-01-2018
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