Autenticidade da ‘Festa Madeirense’

É indubitável o caráter genuíno da “Festa Madeirense”, cujas referências históricas remontam ao século XVII. Essas práticas materializam-se, no tempo contemporâneo, na quadra natalícia com atividades diversas que integram: o receituário de tradição conventual (bolo e broas de mel); as bebidas espirituosas (bebidas alcoólicas destinadas ao consumo humano, e que possuem caraterísticas organoléticas específicas); as manifestações de caráter artesanal (lapinhas e presépios) e de cancioneiro/musical (associadas às “Missas” do Parto e ao Cantar dos Reis) e demais atividades da época natalícia (“A função do Porco”; o “Varrer dos Armários”, entre outros).

A riqueza expressiva dessas práticas e conhecimentos constituem elementos que integram o Património Cultural Imaterial Regional (e Nacional) e, por excelência, valores transmitidos de geração em geração, constantemente recriados pelas comunidades e grupos em função do seu meio.

Em torno desta atividade natalícia, com todo o cerimonial religioso e profano inerente à tradição, persistem registos materiais, de confeção artesanal e de pervivência no tempo que importam recuperar e inventariar para memória futura, e proceder à sua inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural. Em suma, é necessário, à luz do que já fizeram estudiosos já desaparecidos, implementar estudos antropológicos e etnográficos dessas tradições, externas ao espaço religioso, tendo presente as atribuições das entidades que têm por missão os estudos identitários.

Tem sido referido que a tentativa de inventariar (e “classificar”, erradamente o uso deste termo) o património cultural imaterial que se enraizou com a “Festa” seria uma tarefa de imiscuir-se numa estrutura privada como é a da Igreja. Seria correta a intenção e a afirmação se assim o fosse, mas não é. Hoje é perfeitamente aceitável, e compreensível, que não se pretenderá “classificar” ou “decretar” as manifestações do foro sagrado. Apenas as do âmbito profano. Tradições que, à semelhança dos estudos antropológicos que já se fizeram no passado, necessitam de ser “revisitadas”, inventariadas e estudadas. Para qualquer identidade, é fundamental um registo. Esse é o objeto fundamental de qualquer análise.

Mas a autenticidade dos patrimónios culturais, sobretudo os que interagem as efemérides religiosas, podem já ser consultadas no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, onde, por exemplo, à semelhança da Festa em Honra de Nossa Senhora da Penha de França (Ílhavo), do Culto de Nossa Senhora da Piedade (Loulé) e os Santeiros (São Mamede), pode ser consultado o processo cultural da Romagem de São Pedro, Lombada, Santa Cruz, Madeira. Um exemplo de que o registo e a inventariação do património não tem fronteiras, sagradas ou profanas.

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