As promessas tardias do Dr. Jorge Carvalho

A política, sobretudo em ano de eleições autárquicas, tem destas ironias que não deixam de espantar qualquer cidadão atento. O candidato à Câmara Municipal do Funchal, Dr. Jorge Carvalho, apresenta-se agora com um conjunto de promessas que, sendo ambiciosas, soam a incongruências quando cruzadas com o seu passado político. Não estamos a falar de um recém-chegado, de alguém sem responsabilidades anteriores na governação, mas sim de quem ocupou, durante dez anos, o cargo de secretário regional da Educação.


A primeira promessa que salta à vista, e que me diz muito a nível pessoal e profissional, é a construção de um pavilhão no Colégio Infante. É legítimo perguntar: se tal infraestrutura era considerada necessária, e todos concordamos que sim, por que motivo não foi concretizada durante a sua longa década de governação? O Dr. Jorge Carvalho teve tempo, meios e responsabilidade direta sobre a rede escolar da Madeira. Até teve, no seu líder governativo, um parceiro privilegiado, relembre-se as múltiplas promessas do Dr. Albuquerque sobre a construção de um pavilhão para o Funchal. A ausência de ação nessa altura faz com que a promessa de hoje soe menos a visão de futuro e mais a oportunismo eleitoral.


Depois, há o tema da habitação, talvez um dos problemas mais graves e estruturais da cidade do Funchal. O candidato assegura que em quatro anos resolverá esta questão que se arrasta há décadas. Ora, se durante dez anos não se vislumbrou um plano estruturado da parte do governo de que fazia parte para atenuar as dificuldades habitacionais, o que se viu, pelo contrário, foi uma construção desregrada, avulsa e sem um racional entendível, como é possível garantir agora que, em tão curto espaço de tempo e num cargo municipal, se solucionará um problema de raízes tão profundas? A incoerência é evidente e levanta a suspeita de que se trata mais de uma promessa de circunstância do que de um compromisso realista.


A terceira bandeira erguida pelo candidato é a mobilidade na capital madeirense. De novo, a promessa contrasta com a sua experiência passada. A mobilidade urbana não se resolve apenas com pinturas de passadeiras ou planos de transportes que nunca saem do papel; exige visão integrada, articulação entre diferentes áreas da governação e, sobretudo, vontade política. Durante os seus anos no executivo regional, pouco ou nada se fez para transformar a mobilidade no Funchal. Por isso, a súbita urgência agora proclamada parece, no mínimo, tardia.


Tudo isto remete para uma questão maior: a credibilidade. Quando um candidato que esteve no poder durante tanto tempo aparece de repente com soluções milagrosas, os cidadãos têm todo o direito de desconfiar. Não se trata de negar a capacidade de alguém evoluir ou mudar de ideias, mas sim de exigir coerência. A política não pode ser um exercício de amnésia coletiva, em que se esquece o passado para vestir uma capa de salvador de ocasião.


O Funchal precisa de soluções sérias, pensadas e exequíveis. Precisa de líderes que demonstrem, não apenas com palavras, mas com histórico de ação, que sabem concretizar. As promessas do Dr. Jorge Carvalho podem soar bem no papel e render manchetes, mas esbarram de forma clara na memória recente dos funchalenses. E a memória, ao contrário das promessas eleitorais, não se apaga tão facilmente.


Álvaro Martins

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