As gamelas e a terciarização da economia

Foi com interesse que assisti ao debate mensal da Assembleia Regional que tinha como tema central Porto Santo, ilha que muito estimo.
Como num bom banquete o melhor ficou para o fim, quando o nosso Presidente em funções presenteou a bancada do BE com chafurdices em gamelas. Borrou a pintura e desmascarou a pose eclética.

Mas ainda não satisfeito presenteou o deputado do JPP Carlos Costa com uma lição sobre economia, explicando-lhe que a terciarização da economia era sinónimo de evolução da sociedade. Ora não sei que livros andou a ler o senhor Presidente, mas eu pressinto que uma sociedade sem setor primário e secundário, que oferece empregos precários de prestação de serviços pouco qualificados e renumerações de miséria com trabalho escravizado, apenas evolui no desequilíbrio. Claro que não queremos que os Porto-santenses voltem a malhar o trigo de manhã à noite, até porque existem máquinas que podem atalhar caminho de forma mais eficaz, mas se fossem capazes de produzir os frescos de que necessitam, especialmente no inverno, melhorando ao mesmo tempo a paisagem agricultada, teriam sem dúvida um alento.

A busca pela autonomia político-administrativa, longe de ser prioritária, serve para embandeirar em arco, ter assunto. A verdadeira autonomia que urge perseguir é a alimentar e energética. Estas são a meu ver as duas áreas em que deveríamos investir todos os nossos esforços, até porque como demonstrado recentemente durante uma greve de estivadores a nossa vulnerabilidade é grande. Numa terra fértil com vários microclimas, temos de ser capazes de produzir quase tudo o que necessitamos (porque já assim foi no passado) para que não tenhamos de exportar o nosso dinheiro para receber em troca alimentos de baixa qualidade, enriquecendo outras paragens e deixando de mão estendida os nossos concidadãos desempregados.

Os agricultores têm de ser valorizados, instruídos e compensados porque são responsáveis por nos nutrir o corpo e energizar a alma. O desemprego pode e deve ser combatido por uma agricultura subsidiada e coordenada com a procura anual de alimentos. Os recursos tecnológicos e o conhecimento científico encarregar-se-ão de esbater o esforço desumano de outrora que ainda paira na memória de quem viveu do suor de sol a sol. Por outro lado, o arquipélago oferece-nos condições para podermos investir fortemente na produção, armazenamento e utilização de energia renovável, acompanhando a revolução eco-tecnológica que se verifica um pouco por todo o mundo.

O desígnio de terciarizar a economia semeou betão pela ilha de Porto Santo e não esbateu a sua sazonalidade. Rodeado por altas patentes e gente bem pensante sugeria ao nosso presidente que lesse menos e estivesse mais à escuta, porque a terciarização da economia pode levar muitos a chafurdar em gamelas vazias.

BRUNO PESTANA
Enfermeiro

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