Porto Santo. Não vou falar do Porto Santo, da sua grandeza, da sua singularidade, da sua beleza, das suas idiossincrasias.
Não vou, tão pouco, falar da criminosa paragem das obras da Nova Unidade Local de Saúde!
Não vou falar da inenarrável paragem das ligações marítimas e do abandono das ligações aéreas diretas ao continente.
Não falarei do abandono, do isolamento, da inversão de prioridades a que está votada ilha do Porto Santo a cada início do novo ano!
Não falarei do longo inverno Porto-Santense!
Não falarei dessas matérias, não porque elas não sejam essenciais, não porque a Saúde e a Mobilidade dos Porto-santenses não mereçam hoje e sempre um constante alerta!
Não! Hoje, tenho que falar aqui de uma questão maior, mais grave! Mais séria!
E que questão será essa, superior às questões de Saúde ou de Mobilidade que afetam todos aqueles que nasceram ou que decidiram escolher o Porto Santo para viver e criar a sua Família?
Num tempo em que estamos a ser assolados por tempestades constantes, tempestades que ceifam vidas no Continente, tempestades que fazem o vento soprar implacável sobre as culturas na Ponta do Sol, tempestades que trazem vagas procelosas a castigar as costas da Calheta, tempestades que provocam derrocadas que ameaçam pessoas e bens.
Pois, neste tempo em que a Natureza coloca à prova os Homens e os Homens, eles próprios, criam as suas próprias tempestades falarei de um mal.
O mal maior. A grande ameaça que paira não só sobre o Porto Santo, mas também sobre a Madeira e sobre o País, como um todo – a ameaça do radicalismo, da xenofobia, do ódio, da mentira, da desinformação! Cinco bestas do Apocalipse se quisermos utilizar uma imagem bíblica.
Não se trata de um edifício, nem tão pouco de um objeto, mas de uma ideia, de uma corrente que se instala, como um verme, como uma serpente, insidiosa, pela calada, tentadora, apelativa, irresistível?
Não é nada de concreto, nem palpável, e, no entanto, o radicalismo, a xenofobia, o ódio, a mentira, a desinformação têm apenas um dom – o dom de envenenar!
O radicalismo, a xenofobia, o ódio, a mentira, a desinformação tem apenas um dom – o dom de destruir!
O radicalismo, a xenofobia, o ódio, a mentira, a desinformação tem apenas um dom – o dom de corromper!
Como combater, então, esta onda de radicalismo, de xenofobia, de ódio, de mentira, de desinformação que ameaça a nossa sociedade, ameaça os nossos concidadãos?
Como resistir ao facilitismo?
Como resistir aos chavões?
Como resistir às frases feitas?
Como resistir às soluções simples?
Como resistir ao canto da sereia?
Como resistir às doces palavras mansas dos vendedores da banha da cobra?
Como resistir?
Há um remédio! E há uma solução!
E esse remédio é olhar o Passado destas Ilhas fabulosas!
Vejam, aqui, este porto onde nos encontramos, como serviu de entreposto para mercadorias que chegavam dos quatro cantos do mundo!, em navios que enfrentavam as suas próprias tempestades!
Vejam a calçada que pisamos todos os dias, ali ao pé da capela de Santo António da Mouraria, a paciência, o esforço a dureza do trabalho!
Vejam os arcos manuelinos da nossa Sé!
Vejam os caminhos reais de outrora e as vias rápidas dos dias de hoje!
Vejam a reflorestação do Pico Castelo no Porto Santo!
Vejam as levadas!
Vejam o trabalho, vejam o esforço, vejam a entrega! Vejam as mãos calosas daqueles que domaram o mar, que venceram as montanhas, as secas, os piratas, o isolamento!
Um Povo assim não pode ceder ao radicalismo, à xenofobia, ao ódio, à mentira, à desinformação!
Compreendemos a Sua revolta, o Seu desalento no tempo presente, o desespero face à inação a que, frequentemente, quem foi escolhido para dar resposta aos seus problemas, os vota!
E, no entanto, não pode haver Futuro, quando esquecemos o Passado! Respeitar o passado é então o remédio!
E a solução?
A solução é convocar os cidadãos! A solução é dizer não àqueles que dizem que este país não é o…!
Dizer não àqueles que dizem que uma parte vai ter que cumprir a lei…!
Dizer não àqueles que ameaçam com a proibição arbitrária! Com a castração, ou com a prisão, ou com a expulsão!
Quem veste de forma diferente vai ser ostracizado.
Quem tem outra religião vai ser atacado!
Quem tem a pele diferente, vai ser vilipendiado! Isto no País que deu novos mundos ao mundo! Esta é a Região que tem orgulho na sua diáspora!
Vamos glorificar os Trumps, os Órbans, os Salazares, deste munto, quem sabe os Hitleres, os Pol Pots, deste mundo?
A resposta é rápida e simples – NÃO!
Não me interpretem mal. Não somos a favor do crime, ou do desrespeito pela Lei! Não! Queremos o respeito e queremos a liberdade!, Mas não podemos ceder ao radicalismo, e esquecer o humanismo!
Cabe a cada um de nós, cabe a cada cidadão, combater os motivos que estão na origem do recrudescimento da xenofobia e da desinformação: os focos de pobreza, as dificuldades de acesso à Saúde e à Habitação, os salários baixos, as reformas miseráveis, as limitações económicas e educacionais.
São estas questões que merecem o nosso esforço!
São estas desafios que exigem a nossa energia! São estes problemas que pedem uma resposta urgente e cabal a cada um destes 47 escolhidos e os 250 mil que nos acompanham lá fora.
Claro que é mais fácil adjetivar os outros de “vermes”, claro que é mais fácil adjetivar os outros de “cubanos”, claro que é mais fácil vitimizar-se, claro que é mais fácil criticar o sistema, claro que é mais fácil criticar as elites, claro que é mais fácil radicalizar, odiar, mentir, desinformar!
É mais fácil! E, porventura, quando se levanta uma onda de radicalismo, uma onda de xenofobia, talvez o mais fácil e o mais cómodo fosse remetermo-nos ao silêncio!
Permiti que vos conte uma história: no final da segunda grande guerra: quando os navios americanos entraram na baía de Tóquio, o comandante da armada americana recebeu a bordo um comandante japonês, para a rendição. Para o humilhar, confiando na ignorância do vencido iniciou o seu discurso contando lentamente até cem… enquanto a tripulação se esforçava para conter o riso. Na resposta, com dignidade, o oficial japonês continuou: one hundred and one, one hundred and two, one hundred and tree… até mil.
Esta é a lição que nos dá a história! Esta é a lição que nos deram os nossos antepassados! Esta é a solução que nos pedem os nossos filhos, quando os embalamos nos nossos braços!
Os tempos difíceis que vivemos, os desafios que enfrentamos convocam-nos, todos, Juntos, para uma oposição Firme tanto a esse facilitismo, como a esse radicalismo!
Recordemos algumas conquistas! Recordemos a abolição da escravatura! Recordemos a introdução do salário mínimo! Recordemos a conquista do direito de voto das mulheres! Recordemos a implementação do SNS! Recordemos a extensão do ensino obrigatório até ao 12º ano! Recordemos todas as conquistas civilizacionais!
Recordemos a conquista da Autonomia! Recordemos a conquista da Autonomia!
Algumas dessas conquistas até foram classificados de “demagogia” e os seus intérpretes de “populistas”, e, no entanto, hoje beneficiamos do seu arrojo e da sua visão!
Num mundo em constante mudança podemos sentir a tentação do facilitismo, ou do silêncio, ou do refúgio em chavões como: esquerda, ou direita, liberal ou radical, comunista ou democrata-cristão, mas a construção de uma Sociedade mais justa, mas fraterna, não se faz do refúgio em chavões, mas da resposta concreta, sem maniqueísmos, aos problemas concretos, de todos os dias, que os cidadãos, Madeirenses e Porto-Santenses enfrentam. Os problemas de Hoje e os desafios do Futuro!
Vencidos o radicalismo, a xenofobia, o ódio, a mentira, a desinformação, tudo o resto será possível, até a conclusão da Nova Unidade de Saúde no Porto Santo, ou as ligações aéreas e marítimas todo o ano!
Vencidos o radicalismo, a xenofobia, o ódio, a mentira, a desinformação, vencidas as cinco bestas do Apocalipse alcançaremos a Paz, o crescimento, a segurança, o progresso, a saúde, a liberdade!
Viva a Democracia!
Viva a Cidadania!
Viva a Autonomia!
Carlos Silva
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