A aclamação de Guterres

À partida previa-se um futuro menos risonho para o candidato luso. Não era oriundo da Europa de leste e não era do sexo feminino. Ora, embora não sendo lei, estas eram algumas das orientações que se esperava que pesassem na escolha do Conselho de Segurança. Uma rotatividade do cargo e a eleição, proposta pelo ainda secretário-geral Ban Ki-moon, da primeira mulher para o mais alto cargo do sistema das Nações Unidas. Mas havia algo que Guterres tinha: tinha habilidade política, tinha experiência, tinha visão e, acima de tudo tinha (e tem) um profundo sentido de humanidade. E era, de facto, o melhor.

Se dúvidas houvessem, o sorriso rasgado e a inquestionável boa disposição dos membros do Conselho de Segurança durante o discurso do embaixador russo Vitaly Churkin foi bem elucidativo. Guterres tinha conseguido, uma vez mais, usar o seu mais alto trunfo e o que mais marcou a sua carreira – a conciliação.

E é exatamente por esta razão que António Guterres é, inquestionavelmente, o melhor para o cargo que irá agora ocupar.

Num panorama internacional altamente imprevisível, que não tem resposta para a complexidade dos dramas do mundo moderno, como, por exemplo, aos desafios colocados pela crise migratória que, em 2015, trouxe milhares de migrantes e requerentes de asilo para o espaço comunitário, é importante garantir a capacidade de união, organização e de diálogo. Algo que, no meu entender, apenas poderá ser conseguido por alguém com a capacidade diplomática, com a capacidade de unir as mais diversas lideranças políticas e, acima de tudo, com a experiência de uma década como Alto Comissário para os Refugiados.

No mundo globalizado atual, onde tudo se confunde, onde se confunde guerra com terrorismo, onde se confunde terroristas com refugiados, onde se bombardeiam cidades para manter a “paz”, não faltarão desafios no caminho do novo secretário-geral da ONU.

Comecemos pela necessidade imediata de manter a diplomacia interna e gerir os antagonismos na ONU. Numa organização onde cinco dos quinze membros do Conselho de Segurança são “mais membros” do que os outros. Atualmente, e considerando a realidade geopolítica atual, não faz qualquer sentido que China, Estados Unidos, França, Rússia e Reino Unido (principais potências do pós-Segunda Guerra Mundial) tenham poder de evitar a adoção de qualquer projeto “adicional” pela Resolução do Conselho, independentemente do apoio internacional para o projeto e sem qualquer respeito pela noção de maioria do próprio Conselho.

Obviamente que a influência diplomática do secretário-geral da ONU terá, também, de atuar ao nível de assuntos como a luta contra a pobreza, a dignificação da pessoa humana, a crise alimentar e o próprio acordo climático discutido em Paris e ratificado, esta semana, pelo Parlamento Europeu. Um passo que, apesar de pequeno, é importante para o reconhecimento do problema das alterações climáticas e o impacto destas quer ao nível da biodiversidade quer a outros níveis, como as migrações em massa de populações, quer a eventos climáticos extremos que resultarão em calor intenso, falta de água em alguns pontos e inundações em tantos outros.

Outros assuntos irão exigir uma atenção imediata, mas gostaria de cingir-me a apenas dois, que me parecem extremamente relevantes neste contexto atual. O primeiro prende-se, inevitavelmente, com a questão Síria. Uma guerra civil com contornos difíceis de antecipar. Esta questão terá, sem qualquer dúvida, um peso imensurável quer nas questões humanitárias quer nas próprias consequências políticas internacionais, como temos vindo a assistir, com as recentes vagas de migrações. Num mundo onde existem 60 milhões de refugiados, incluindo migrantes e deslocados, é necessário ter um papel ativo quer a nível de segurança, quer a nível diplomático, na obtenção de soluções justas que levem os governos a aceitar (e respeitar) os refugiados.

O segundo problema prende-se com o terrorismo internacional e os chamados “conflitos congelados”, quer no mundo árabe quer em outros locais como o Kosovo, Moldávia, Geórgia, entre outros. É obvio, que terão de ser desenvolvidos novas linhas de comunicação, mas acima de tudo, a grande responsabilidade estará na imposição de uma presença renovada de uma organização que tem vindo a perder protagonismo, credibilidade e eficácia.

Tenho confiança que Guterres terá um papel importante em relembrar os princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas, assinada em São Francisco a 26 de junho de 1945, que pretendia, acima de tudo, preservar a paz e construir um mundo melhor. Estou convicto que, neste sentido, o “Nosso” Guterres será o homem certo, no momento certo para o lugar certo.
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