A “abundância” do Crescimento Económico

Cresci a ouvir falar em crescimento económico e ainda hoje a toda a hora, em qualquer jornal, qualquer político que se preze defende este conceito com unhas e dentes. Dizem que o crescimento económico trará prosperidade e abundância, que este é o único caminho para termos mais dinheiro e sermos mais felizes.

Já aqui vos falei sobre Ecossocialismo e hoje abordo o “decrescimento”, uma das suas facetas. Provocativo é certo, ofensivo para os devotos do Capitalismo, mas o seu propósito é criar uma sociedade onde se viva melhor, trabalhando e consumindo menos.

O problema não é o crescimento económico, que suprime necessidades básicas, mas antes, o tipo de consumo dominante nos países ditos desenvolvidos, cujas características principais são: a propriedade ostensiva, o desperdício maciço, a acumulação obsessiva de bens e a aquisição compulsiva de pseudonovidades impostas pela “moda”.

A crise económica e financeira que afeta o Mundo é consequência da lógica da sociedade de crescimento que, depois dos anos oitenta, prolongou a ilusão de crescimento e entrou numa bolha financeira. Para além de financeira, esta é também uma crise económica e, acima de tudo, uma crise civilizacional. As declarações do Papa Francisco espelham bem a crise multidimensional que vivemos quando se refere à industria da guerra como um dos maiores negócios do mundo e dizendo que os senhores da guerra “lucram bilhões com o sangue dos inocentes”. Não é à toa que os EUA estão em várias frentes de batalha, 40% das fábricas de armamento do mundo estão lá sediadas.

Muitos não acreditam ser possível viver melhor com menos, mas o caminho que percorremos não tem saída. O crescimento tem conduzido ao endividamento, ao desemprego, à desagregação familiar, ao isolamento, à depressão, ao esgotamento ambiental do planeta, à guerra.

O decrescimento não está no pólo oposto do bem-estar, antes pelo contrário, anuncia-se como um caminho para encontrar a felicidade perdida. Os inquéritos mostram que os portugueses não se sentem felizes, apesar de terem atingido um nível de consumo elevado. A insatisfação é o motor do capitalismo e todos somos convencidos diariamente de que o que temos não chega.

Numa sociedade de decrescimento dá-se primazia à socialização, sem materialismo, consumindo dentro das necessidades e produzindo bens duradouros, que duram uma vida, sem datas de validade programadas.

O paradigma do crescimento económico não é solução para os problemas que enfrentamos. Aos políticos, aos cientistas e aos demais cidadãos pede-se lucidez e coragem para encarar os problemas de frente, falar a verdade e encontrar soluções pacíficas que nos permitam coabitar em paz.

BRUNO PESTANA
Enfermeiro

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