Nasci em 77. O ponto de partida de uma maratona que, a cada ano que passa, mais se assemelha a uma corrida de sprint, tal é a vertigem com que os dias se atropelam no percurso das nossas vidas.
Para os nascidos nos finais dos anos 70 e início dos 80, o tempo tem o seu próprio compasso: acelerado, imparável, enquanto entramos pelos “entas” adentro. Somos a geração do Spectrum e do Commodore, aquela que combinava um café no Apolo às 17h sem precisar de telemóvel, e, ainda assim, lá estávamos todos, à espera.
Éramos gente “offline” por natureza, analógica, cuja maior aventura do dia podia ser passar pela pequena loja de discos de vinil na cave do Centro Comercial da Sé, espreitar as novidades, cobiçar cassetes para o walkman amarelinho da Sony. O som mais moderno que existia era o da fita a ser rebobinada com uma caneta Bic. E o maior drama tecnológico? A cassete encravar no leitor.
Naquele tempo, “streaming” era ir de carro com o meu tio ao clube de vídeo da Nazaré alugar filmes do Eddie Murphy em VHS e não esquecer de rebobinar antes de devolver, para não pagar multa!
A era das mixtapes, gravadas em fitas BASF ou TDK, de tardes inteiras colado à aparelhagem da Denon, à espera que a rádio passasse aquela música e de resmungar quando o locutor falava por cima. Mais tarde chegaram os CDs, a grande novidade! Deixávamos os discos e as cassetes para trás, e a romaria passava a ser até à Rua das Pretas, visitar a CD Music, um ritual quase diário, com o discman sempre atrás.
Era tempo de namorar de mãos dadas, sem likes nem fotos no Instagram. Apenas memórias, nos bancos do Jardim Municipal, no relvado do Parque de Santa Catarina. As canções de amor ecoavam nas guitarras e pianos de quem tinha talento, com instrumentos reais, como reais eram os sentimentos. Tempos em que só precisávamos de cuidar da nossa versão verdadeira, não dessa versão virtual que hoje alimentamos com mais e mais conteúdo digital. Criávamos memórias, não selfies. Não precisávamos de emojis para traduzir emoções.
Namorávamos ao telefone fixo, talvez uma chamada por dia, medida pelas possibilidades e pela coragem, porque o telefone ficava na sala, e os pais dela ouviam tudo. Do outro lado da linha, imaginávamos um sorriso cúmplice; os silêncios falavam alto. Era um imaginário que hoje o FaceTime jamais conseguiria traduzir. Os nossos chats eram as conversas no intervalo da escola, no rés do chão do prédio ou no café da esquina.
O Funchal era o nosso quintal, a cidade pertencia-nos! Do Pináculo à Praia Formosa, conhecíamos todos os cantos sem precisar de GPS. Somos a geração dos verões no Lido, da toalha pousada no cimento a meio dos rochedos com vista para o tobogan, das luzes incandescentes de Natal, coloridas, que quando semicerrávamos os olhos pareciam estrelas ancoradas nas ruas da cidade. O Funchal era nosso.
Entrávamos nos anos 90. O Muro de Berlim tinha caído, deixávamos para trás os The Cure ou os Smiths, e bebíamos sofregamente Nirvana e Pearl Jam. As camisas de flanela aparavam os cabelos compridos dos rapazes que se imaginavam Eddie Vedder a passear na Avenida do Mar.
Nas ruas, ouvia-se o roncar dos escapes dos Renault 5 Turbo ou dos VW Polo G40, “grandes máquinas!”, dizíamos, deixando os anos 80 para trás, junto com o nosso imaginário infantil. Era tempo de juventude, de transição, da passagem para o Secundário.
Somos da geração que, quando chegou ao 9º ano, viu as “Áreas” transformarem-se em “Agrupamentos”, e que pôde escolher “Métodos Quantitativos” em vez de Matemática no 10º.
A juventude celebrava-se nas manhãs rumo à escola, nas tardes no MadBurger, nas doses de batata na Marina, nos campos de futebol onde se corria de All Star atrás da bola.
As salas do Cine Santa Maria enchiam-se para ver A Máscara de Jim Carrey . Os jovens faziam fila na Foto Profissional para ver as fotos das festas em que tinham estado na semana anterior, talvez o baile de finalistas ou a Festa da Juventude.
Ao fim de semana, talvez uma matiné na FAOJ, um copo no Bar do Manuel ou no Queens Pub. A noite abria com uns matrecos no LouvaDeus e ganhava corpo ao som de Mr. Jones, dos Counting Crows, na pista de dança.
Os anos 90 pareciam acelerar, como se existisse um turbo cósmico a disparar mil minutos por hora. O computador começava a dominar o quotidiano; nas escolas surgiam aquelas caixas brancas que abriam novas janelas para nós. Os modems 56k faziam ruídos estranhos e lentos, ligando-nos ao Altavista e ao Yahoo. Surgia uma nova corrida ao ouro, desta vez, feita de zeros e uns: a era digital.
Fomos, como sempre, aventureiros. Aceitámos o domínio do digital e o advento da internet com o entusiasmo dos novos tempos, curiosos, fascinados e, às vezes, tolos nos receios. Com o final da década à vista, o nosso maior medo era o bug do milénio. “O que vai acontecer no ano 2000?”, perguntávamos.
Foram os anos 90 que definiram o que chamo de geração DAC, um trocadilho com a sigla que qualquer audiófilo conhece: Digital to Analog Converter, o conversor digital-analógico.
É o que somos. A geração que faz a ponte entre o analógico e o digital. A geração que cola, que une duas eras. Jamais haverá outra igual.
Somos filhos do vinil e pais do streaming.
E talvez seja esse o nosso maior privilégio: termos visto o mundo mudar de som, e termos dançado em ambos. Mas isso também nos ensina a olhar para o futuro com consciência: lembrando que a cidade e a sociedade que construímos não pode esquecer as pessoas que a habitam, nem o espírito das gerações que a fizeram crescer.
Fábio Pires
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