Passo praticamente todos os dias pela estátua de Cristiano Ronaldo. Sempre rodeado de gente, o gigante de bronze ali está, imóvel como que à espera de algo que está para acontecer. Estabeleço um paralelo com o nosso estado de alma. Os madeirenses também estão assim, parados, numa expetativa surreal olhando para a porta de um museu cheio de riquezas e eles cá fora presos a um pedestal de onde não se conseguem mover.
O futebolista madeirense, exemplo máximo de dinamismo e velocidade, chega à Madeira, a terra que o viu nascer e que tanto ama, e fica parado, braços ligeiramente abertos, pernas na mesma posição e estático, paralisado. Nós também ficamos assim, parados no terreno, à espera de coisas que nos prometeram. Um hospital novo, ligações marítimas para o continente, aviões cargueiros para exportar as nossas produções e acesso a produtos mais em conta, enfim tanta coisa que nos paralisou os movimentos e de que ainda estamos à espera.
As mãos da estátua estão com uma coloração diferente do restante do corpo. São tantas pessoas a tirar fotografias e sempre de mão dada com a estrela maior do futebol. As mãos dos madeirenses também estão diferentes, cansadas da labuta diária, sol a sol, mãos gretadas pelo peso sufocante de uma dívida colossal que todos os dias lhes vai ao bolso e sem piedade lhes rouba a alegria, seja pela precariedade laboral, pela sufocante carga fiscal que lhes retira rendimentos ou ainda pela máquina destruidora de vidas e esperança que dá pelo nome de desemprego. As mãos dos madeirenses sangram…
Falta a bola na estátua de CR7. Como é possível fazer uma estátua de um futebolista e não lhe pôr uma bola por perto? E a nossa bola onde está? Segundo quem nos governa a bola está em Lisboa. O hospital não sai do projeto, a culpa é de Lisboa; o barco não anda, a culpa é de Lisboa; o avião cargueiro não aterra, a culpa é de Lisboa; as passagens para a Madeira são caras, a culpa é de Lisboa; o governo não governa… Mais exemplos haveria de bolas chutadas para o outro lado.
A estratégia não é nova e chama-se contencioso das autonomias e dizem ser uma espécie de dialética confrontacional, para consumo interno, porque do outro lado, este espernear ridículo já é chão que deu uvas.
A estátua de Cristiano está envolta por estrangeiros a tirar fotografias…
JOÃO CARLOS FREITAS
Empresário




