A dignidade que espera numa maca (e que pode nunca chegar)…

O mundo evolui, a sociedade evolui, vivemos mais tempo e, supostamente, com maior qualidade de vida. Mas a realidade nem sempre acompanha o que se espera ou o que se vende cá para fora… O que para alguns é um sinal de progresso, de longevidade, para muitos, é apenas uma ilusão. Uma falácia camuflada com discursos técnicos, desprovidos de qualquer empatia, de natureza humana… Onde fica então a humanização da saúde? Do apoio Social?

E neste contexto, é completamente inaceitável que se tente normalizar o que se passa neste momento no Hospital Dr. Nélio Mendonça, até porque não se trata apenas de um problema de pressão nas urgências. É, principalmente, um problema de dignidade que vem revelar falhas profundas no sistema e que atingiu, contornos dramáticos este mês! Ao contrário do que nos querem fazer pensar, o que está a acontecer não é uma fatalidade pontual nem um “pico imprevisto” de procura. É sim o resultado, infelizmente previsível, de uma década de falhas estratégica e de opções políticas que ignoraram a realidade de uma população que vive mais anos, mas que não tem a rede ideal de suporte que essa longevidade exige.

O colapso a que hoje assistimos nas urgências, e não só, resulta da falta de investimento nas saídas do sistema, uma situação de continuidade que se arrasta desde meados 2010, e cuja resposta oficial tem sido a de “empurrar com a barriga”, privilegiando o betão de grandes obras em detrimento de uma rede de cuidados que vise proteger as pessoas no momento em que elas mais precisam.

Ao longo desta semana, dezenas de doentes entraram (e continuam a entrar) na urgência com indicação para internamento.  E ali ficam, encostados numa maca, num corredor qualquer, num cantinho qualquer, sem privacidade, sem hipótese de higiene pessoal, sem o tratamento adequado… A urgência passa a ser um limbo onde se deixam de tratar os doentes agudos para passar a ser um internamento improvisado, com cerca de 70 doentes “internado”! 70 doentes! O equivalente a dois serviços de medicina interna. 

Esta realidade, já por si só obscura, gera ainda um efeito dominó vicioso: cirurgias programadas de doentes que esperam há meses, ou até anos, são sistematicamente adiadas porque o hospital simplesmente não tem onde colocar esses pacientes depois de serem operados. Acresce ao facto, o vazio legal inaceitável que esta situação acarreta, onde o direito ao encaminhamento para o setor privado em caso de rutura ou pela ultrapassagem dos tempos máximos de espera, fica suspenso à porta da urgência. Como o doente já deu entrada e está sob “vigilância” numa maca, o sistema recorre a este impasse jurídico para não admitir a incapacidade de internamento, e nega assim ao utente a vaga que a lei, alegadamente, deveria garantir.

No centro deste bloqueio estão centenas de altas problemáticas que hoje entopem 36% da capacidade total do hospital. 36%!!

São mais de 300 pessoas em condição de alta social (altas problemáticas) retidas por falha administrativa e pela ausência gritante, por exemplo, de unidades de convalescença rápida, focadas na intervenção psicossocial e na reabilitação intensiva de doentes elegíveis, na promoção da sua recuperação, sem perda de autonomia. Estas unidades poderiam capacitar os doentes e permitir-lhes o tão desejado regresso a casa. 

No entanto, a falha é dupla. À falta destas unidades de resposta rápida, soma-se a escassez crónica de vagas em lares para os que perdem definitivamente a sua autonomia ou ainda, aos que lhes falta suporte familiar e precisam realmente dessa resposta social. Sem reabilitação nem vagas de acolhimento suficientes, as pessoas acabam “depositadas” em camas de hospital, transformando uma vaga que deveria ser temporária num internamento forçado que por um lado condena o utente à institucionalização e por outro, leva o hospital à paralisia.

A agravar este cenário, a Saúde e a Segurança Social continuam a funcionar como ilhas separadas, sem sistemas informáticos integrados que comuniquem entre si. A alta, assinada pelo médico, leva a um processo que se perde num infinito de burocracia manual, muitas vezes iniciado pela família, e que demora semanas, enquanto os dois organismos jogam ao “empurra” orçamental. 

E de que serve, neste caos, a figura quase mitológica, da “equipa de gestão de camas”, que pouco ou nada pode fazer se não há camas para gerir!? Não é em vão que dezenas de enfermeiros e médicos apresentem escusas de responsabilidade por não conseguirem garantir a segurança dos cuidados- Este é o seu grito de alerta desesperado sobre a falência ética e técnica do serviço. 

Posto isto, considero lamentável que o Presidente do Governo Regional tenha vindo a público desvalorizar estas escusas, tratando-as como ruído ou manobra de burocrática de pressão em vez de olhar para as mesmas como aquilo que elas são: a prova de que o sistema está em colapso.  

Desvalorizar o grito de quem cuida, no limite das suas forças, é o último estágio da negação política.

Entretanto, e numa ótica quiçá de ilusionismo e para ganhar tempo, a tutela vem agora apresentar possíveis soluções que chegam com dez anos de atraso. Prova de que se privilegiou a propaganda do imediato em detrimento de uma rede social robusta. Investir 1,5 milhões de euros em obras na urgência para “acomodar” melhor quem lá fica retido, em vez de resolver o motivo pelo qual as pessoas não conseguem sair do hospital é prova mais do que suficiente de que as prioridades estão invertidas e que se aceitou o corredor como a nova norma. 

A Madeira não precisa de remendos! A Madeira exige uma reforma, uma reestruturação que não faça do hospital o centro da resposta social, e que devolva a dignidade aos seus cidadãos. O hospital, seja o atual ou o novo no futuro, não pode ser o último refúgio de um sistema social que faliu por péssimas opções sociais e políticas. 

As pessoas não podem ficar à espera e não se podem ignorar os alertas dos profissionais porque isso é o mesmo que abandonar os doentes à sua sorte. E certamente, esse não será o caminho.


Mariusky Spínola


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