É verdade que já houve verões mais quentes, daqueles com cinza pelos terreiros, noites em claro e um cheiro a fumo que tardou em dissipar. É verdade que já houve verões em que os amantes da inércia, ou de um bom e merecido descanso, se banharam demoradamente nas águas do Oceano Atlântico, pedindo em silêncio que as férias se estendessem por mais tempo. Mas não é a esse calor abrasador que me refiro.

O verão quente em vivemos é aquele que não deixa arrefecer os temas do momento, as polémicas, as intrigas, as más-línguas e, acima de tudo, não disfarça o desconforto governativo perante o sucesso ou insucesso daquilo que se planeou para ser um fracasso ou a carta na manga que não virou cereja no topo do bolo.

Sempre ensinámos às crianças que quando se dá algo, não se pede de volta. Não fica bem. O mesmo se passa quando afirmamos cumprir e depois queremos apenas… testar. E quem será a cobaia neste braço de ferro renovado? Quem servirá de rampa de lançamento ao procurador da construção civil? É necessário conjugar o passado com o presente, antevendo o futuro.

Temos, efetivamente, um avião cargueiro que, após oportunas lamentações, receberá um incentivo mensal para não deixar cair a linha e, com ela, o cartaz laranja. Temos, com provas práticas já desenvolvidas contra os preconceitos do passado, um helicóptero de apoio ao combate aos incêndios. E temos, para azar dos agoureiros, um ferry que, a curto prazo, mostrou que faz a diferença, sendo um sucesso progressivo, viagem após viagem, mesmo sem a devida promoção da linha em território nacional. O que tem de ser, tem de ser. Queremos um ferry todo o ano.

Ganhámos algumas lutas mas estamos longe de ganhar a guerra. Continuam os agressivos constrangimentos no Aeroporto da Madeira com prejuízos em várias frentes. Custa ouvir que diversas pessoas não voltarão à nossa região quando, há bem pouco tempo, outras anunciavam e eram agraciadas pelas inúmeras vezes que cá vinham. Também está com dificuldade em descolar o transporte aéreo dos estudantes universitários. O negócio não é rentável, não interessa e, de um momento para outro, estamos reféns das companhias cuja prioridade é o lucro e não o social. Ainda neste forno, coze em banho-maria a revisão do subsídio de mobilidade, ingrediente secreto para que António Costa “ganhe a Madeira em 2019”(?!).

Enquanto isto, azedam os conversas nas redes sociais, os blogues ditos imparciais começam a posicionar-se e os partidos vão compondo a linha de partida. Saltam da sombra os ressabiados, mas a meta 2019 não está assim tão ao virar da esquina. Desgastam-se, rastejam, anulam os trunfos e a imagem chegando a criar celeumas com insignificâncias, só porque há um calendário a cumprir, mostrando a sua pequenez moral, escondida atrás de um fato aprumado, gravata da moda ou um título académico. Mas o povo atento, no verão quente, anda descalço, bebe água fresca da fonte e peneira “a farinha”, escolhendo o saco que melhor o servir no inverno.

*Artigo de opinião publicado no Tribuna da Madeira / 31-08-2018

Patrícia Spínola

Patrícia Spínola

Deputada Parlamentar em Juntos pelo Povo
Professora licenciada em Ciências da Educação – 1º Ciclo do Ensino Básico pela Universidade da Madeira; Pós-Graduada em Habilidades Sociais e Competências Profissionais para a Gestão em Organizações Públicas e Privadas pela Universidade de Cádiz; Mestranda em Ciências de Educação – Supervisão Pedagógica, na Universidade da Madeira; Deputada Municipal no concelho de Santa Cruz; Membro da Comissão Alargada da CPCJ-Santa Cruz.
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