Dentro de dias, todos os cidadãos da União Europeia, maiores de 18 anos, vão ser chamados a votos. Seja na Cova do Til, na Freguesia de São Martinho, ou em qualquer outro ponto dos vinte e oito países que constituem a União Europeia. Apesar de termos direito a votar desde 1986, o conceito de Cidadão da União Europeia é algo que parece ainda muito distante, pelos 66% de abstenção nas últimas eleições, tanto a nível regional como nacional. Pior ficará, certamente, se as forças políticas concorrentes incluírem nas suas listas meio candidato por cada Região Autónoma.

Uma destas tardes de março, parei à porta da Junta de Freguesia para dois dedos de conversava  com Angelina, uma simpática senhora de São Martinho, que nos últimos anos tem acompanhado grande parte das iniciativas que disponibilizamos e que, nesse dia, por ali passou para assistir ao debate dinamizado no âmbito do Dia Internacional da Mulher. “As mulheres são valentes!” disse-me ela, apontando para o auditório. Acenei afirmativamente enquanto ressalvava que 2019 é um ano de eleições e as mulheres devem ter um papel forte, começando já, pelas Europeias. Enquanto ela ajeitava o cabelo por baixo do lenço, respondeu-me “isso são contas de outro rosário. Nessas eu não costumo votar. Eu voto é nas outras…”. Senti nesta resposta um vazio maior que o tempo que decorreu desde que Portugal se tornou membro de facto da União Europeia. Aproximei-me dos seus olhos e disse-lhe: “São Martinho também é Europa.” Angelina cruzou os braços e respondeu-me, hesitando entre um encolher de ombros: “Sim, eu sei mas, para mim, parece-me longe”.

Nisto, deu um passo em frente, aproximou-se e disse-me: “Vou contar-lhe uma tontice que me aconteceu há uns anos”. Angelina, entre risos tapados pelas palmas das mãos e alertando que agora sabe mais que naquele tempo, contou-me que, quando os carros começaram a circular na via rápida, ela e o marido “que Deus o tenha”, disse fechando os olhos e benzendo-se, tinham o hábito de sair da casa onde moravam ali perto no Caminho de São Martinho, entravam no túnel do Caminho do Passeio e encostavam-se ao muro que ladeia a via rápida. Ali ficavam até ao por do sol, a imaginar que a Europa seria assim, como aquela reta na estrada larga que rasgava São Martinho. Era como se o sonho da Europa fosse somente separado da realidade por um simples muro, igual aos muitos que o marido fez na vida, nas obras por onde trabalhou. Não tinham carro e a estrada era para os outros. Um dia mais folgado ousaram meter-se num táxi e pedir para ir a Câmara de Lobos. O dinheiro não dava para mais e o companheiro “também gostava de…” disse-me ela levando o polegar à boca. Nesse dia, queriam sentir que também viviam na Europa e lá foram sentados no táxi à procura do sonho. Entraram pela Cruz de Carvalho, subiram até São Martinho, passaram pela reta onde tantas vezes se encostaram e duas curvas depois saíram em Santa Rita. Que decepção… a via rápida, a tal que cheirava a Europa, terminava ali e retomava o “caminho antigo”. Ficaram-se pelo Pé-de-Cabra a afogar o sonho e vieram a pé para casa. Desde esse dia, a Europa, para eles, ficava mais distante. Parecia que o muro da via rápida tinha crescido e abafado o sonho e agora em vez de unir, era uma estrada que separava. Uma desilusão que espelhava a realidade de muitos que viam esse desenvolvimento a chegar somente em forma de betão e nunca mais quiseram saber de Eleições Europeias. Não lhes matava a fome.

É importante e necessário que todas as forças políticas, estando ou não a concorrer, se envolvam no sentido de convencer todos e todas a irem às urnas para escolher o novo Parlamento Europeu. Com esse objetivo, deve ser também chamada toda a sociedade. Nesta batalha, é necessário apelar ao voto, não só dos que agora atingem a idade para o efeito, mas também aqueles que, apesar de há muito terem idade para usufruir desse privilégio, nunca o fizeram, como a Angelina. É preciso fazê-los acreditar na Europa. É necessário consciencializar todos e todas para que, quando votarem, estejam a pensar em algo que é muito objetivo: o meu futuro e o de todas as pessoas. E isso está em todas as mãos, inclusive nas mãos da Angelina, Freguesa de São Martinho e Cidadã da União Europeia.

RICARDO PESTANA
Assistente Técnico / Vogal no Executivo da Junta de Freguesia de São Martinho

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