Fazer ouvidos de mercador é dito antigo, que significa fazer-se desentendido, fingir que não percebe ou não ouve o que se diz. Nos dias de hoje, pode aplicar-se, com propriedade, aos políticos que se mostram indiferentes ou surdos perante observações e reclamações pertinentes dos cidadãos.

Julga-se que este aforismo pretendia caracterizar o comportamento dos mercadores de outrora, que simulavam surdez, quando os seus clientes apresentavam propostas de preços mais convenientes, no tradicional regateio das práticas comerciais.

Transposta para o plano da política, a expressão fazer ouvidos de mercador é aqui lembrada face à atitude da Frente MarFunchal, E. M., e da Câmara Municipal do Funchal, quando escrevi no Facebook (27 e 31-08; 2 e 13-09) e neste projeto jornalístico digital (Funchal Notícias, 12-09-2018), sobre o estado da Promenade da Orla Marítima: Lido – Clube Naval, em especial da falta de iluminação na zona do Pestana Promenade.

Dessas «orelhas moucas» excetua-se o presidente da Junta de Freguesia de São Martinho, que, no dia 27 de agosto, me informou ter dado conhecimento da situação à CMF, a fim de ser reposta, rapidamente, a iluminação.

 Na verdade, neste interessante percurso da cidade do Funchal há, atualmente, 24 candeeiros sem luz e um intermitente. Contudo, a situação mais impressionante é defronte daqueles «quartinhos do fundo» do Pestana Promenade, com balcão para o Passeio do Lido, onde a luz elétrica do exterior parece incomodar os hóspedes.

O eventual transtorno poderia, certamente, ser resolvido com as cortinas do tipo blackout cerradas. Garantiriam assim o escurecimento do quarto e poupariam os caminhantes do Passeio do Lido de avistarem hóspedes seminus na cama, enrolados ou a descansar, quando a janela do balcão está aberta e a luz do quarto acesa, num involuntário voyeurismo, tudo num destino turístico que se diz de qualidade, mas que, por vezes, se aproxima do que de pior se pratica por esse mundo fora.

Não quero acreditar nem pretendo insinuar que este fazer ouvidos de mercador se associa a qualquer panelinha. Mas é muito estranho que se teime em manter aquela zona às escuras, depois de já, pessoalmente, ter falado com o administrador da Frente MarFunchal e outro membro desta empresa municipal, no passado dia 31 de agosto à noite, e de diversos alertas públicos. E após também de, recentemente, terem sido ali recolocados os respetivos candeeiros, agora com focos de luz em vez de globos, como os demais. No entanto, curiosamente um, junto aos «quartinhos do fundo» do Pestana Promenade, nunca está ligado. É, de certeza, do tipo para inglês ver.

O contacto com os cidadãos, percorrendo o território e publicando fotografias sugestivas, bucólicas, cómicas ou ridículas na imprensa ou nas redes sociais, não esgota a tão badalada política de proximidade ou necessidade de auscultação dos eleitores. Cada vez mais, o protesto, a reivindicação, o parecer ou a opinião percorrem os modernos suportes de difusão da informação. Há, pois, que lhes conceder importância e o devido tratamento.

Com ouvidos de mercador não se constroem caminhos de confiança. Para o cidadão, aquilo que verdadeiramente interessa é a resolução dos problemas pela autarquia ou a empresa municipal, inclusive as pequenas coisas, como a iluminação do Passeio do Lido.

NELSON VERÍSSIMO
Professor – Universidade da Madeira

*Artigo de opinião publicado no Funchal Notícias – Madeira / 25-09-2018

 

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