Celebrou-se na passada semana, a Semana do Meio Ambiente com as típicas ações de sensibilização, manifestações e longos debates sobre a importância do meio que nos circunda e como o devemos preservar. Ironicamente, estes últimos dias têm sido períodos de dura reflexão sobre o caminho a seguir e se realmente existirá motivos de celebração quer a nível local quer numa escala global.

Destaque evidente para a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar o seu país do maior acordo climático da história, o chamado “Acordo de Paris”. Num claro negacionismo dos efeitos das alterações climáticas, Trump conseguiu, novamente, surpreender os seus críticos políticos, quando estes pensavam já ter visto tudo o que poderia resultar da ausência de liderança norte-americana, numa completa negligência do futuro das próximas gerações.

Mas o clima está a aquecer também noutros países como o Brasil, onde os Parlamentares da bancada ruralista e o próprio presidente Michel Temer enfraquecem o licenciamento ambiental e dos dispositivos de proteção das florestas e dos seus habitantes e aumentam a pobreza no campo e o êxodo rural com a aprovação de projetos que penalizam gravemente o meio florestal e anunciam facilidades na implementação de agrotóxicos (alguns deles altamente cancerígenos).

Toda esta atmosfera internacional exige a tomada de políticas urgentes e consistentes dos líderes políticos das quais a Região não se encontra alheia. As alterações climáticas e a própria conservação do meio ambiente deixaram, há muito tempo, de ser uma prioridade de último recurso para ser considerada apenas quando todos os requisitos da sociedade estivessem saciados. É necessário olhar para a conservação como um pilar basilar de toda a cadeia ecológica à qual pertencemos.

E para que serve o ambiente? É imperativo entendermos que o ambiente somos todos nós e todos os que nos rodeiam. E se, em tempos, víamos estas temáticas profundamente ligadas às políticas de “proteção dos bichinhos”, hoje em dia a sociedade interpreta o ambiente de forma egocêntrica, percebendo que dele depende a nossa sobrevivência futura. Uma má gestão das políticas ambientais poderá alterar significativamente e de uma forma irreversível a paisagem que conhecemos. E isso terá graves implicações quer a nível do turismo, que baseia a nossa economia, quer a nível agrícola com a destruição das nossas culturas, quer a nível ambiental com a diminuição dos nossos recursos naturais.

E temos de saber olhar em redor para sabermos por onde começar. As estratégias baseadas no conhecimento dos ecossistemas, da biologia e ecologia das espécies rodeiam-nos todos os dias e há que compreender e usar a conservação da biodiversidade como estratégia de mitigação, revelando que estas não são só números ou nomes de espécies que se plantam ou introduzem no nosso ambiente. Há que fazê-lo com responsabilidade. Os exemplos mais recentes que temos vindo a verificar na nossa região são prova de que muito ainda há por fazer neste sentido.

A destruição dos nossos fundos marinhos pelos inertes depositados na orla costeira, a falta de consenso na utilização controlada de animais no combate a infestantes, numa coabitação estável e equilibrada, a falta de rigor cientifico na sucessiva reflorestação da Madeira (com o dispêndio de milhões de euros na plantação de espécies exóticas em detrimento de plantas nativas) ou mesmo as últimas decisões governamentais de libertação intencional de espécies invasoras no nosso ecossistema são prova clara da insipiência que, tal como nos Estados Unidos de Trump, mostram um profundo desconhecimento do impacto destas ações no nosso ambiente e um profundo desrespeito pela comunidade científica que se opõe veemente a estas decisões, bem patente na atual retórica totalitária regional do “doa a quem doer!”.

Falta esta visão holística que deverá, acima de tudo, estar subjacente a qualquer estratégia política ambiental que tarda em ser assumida. É necessário que se assuma esta posição perante os jovens, incentivando um olhar e um maior respeito ambiental, mas também perante a sociedade e os próprios decisores e responsáveis políticos, para que, ao contrário da administração norte-americana, saibam usar e adaptar as ferramentas considerando a correta interpretação dos dados produzidos pelos investigadores e pela comunidade científica.

Rafael Nunes

Rafael Nunes

Deputado Parlamentar em Juntos pelo Povo
Formado em Ciências Biológicas e da Saúde pela Universidade dos Açores e investigador no CHAM – Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores; Especialista em áreas de Antropologia, Ecologia, Conservação e Gestão do Ambiente, Biologia, Sustentabilidade e Desenvolvimento Rural.
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